MARATONA LITERÁRIA DE FÉRIAS – 2016

Não vou ter férias, mas isso é um mero detalhe.

A Maratona Literária de Férias é uma proposta de leitura conjunta de quatro canais literários brasileiros: Literature-se, Nuvem Literária, Dear Maidy e Pronome Interrogativo. Eu assisto os vídeos da Mell e da Ju, os dois primeiros canais listados, assiduamente. Vi então o convite há um tempinho, decidi que não ia participar porque a vida não está fácil. Mas aí… Quando que ela fica né? E eu, que adoro estabelecer metas que não consigo cumprir, acabei voltando atrás e eis aqui meu post OUSADÍSSIMO com o que eu pretendo ler nesse período.

O legal é que é uma maratona relativamente longa. Vai do dia 16 de julho ao dia 14 de agosto. Quase um mês! E tem alguns desafios que não são obrigatórios, e você pode combinar as categorias. Eu decidi tentar encaixar os livros que quero ler nos desafios, então aí vai:

  1. Um livro publicado antes do seu nascimento: A Viagem – Virginia Woolf
  2. Um livro recomendado por um amigo + Um livro nacional que se passa no Brasil: Dom Casmurro – Machado de Assis (todo mundo recomenda, nunca consigo terminar, da última vez faltou bem pouquinho, e lá vamos nós DE NOVO).
  3. Um livro que você deveria ter lido no colégio, mas não leu + Um livro para ler em um dia: Vestido de Noiva – Nelson Rodrigues
  4. Um livro que se passa num lugar que você sempre quis visitar: O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde (Inglaterra, of course).
  5. Um livro que você pegou emprestado + Uma HQ: Vidas Secas – Graciliano Ramos, ilustrações de Guazarelli e roteiro de Arnaldo Blanco (O dono tá pra me matar e ir à polícia declarar sequestro).
  6. Um livro sobre viagem no tempo: Outlander – Diana Gabaldon (OLHA AÍ A AMBIÇÃO)
  7. Um livro com uma só palavra: Psicose – Robert Bloch.

 

Aí tu pensas: parou por aí? Só sete livros? Na MLI do ano passado que foram só duas semanas, tu prometestes 10! Então, agosto é o mês final da Maratona de Terror do Clube do Livro Online (que eu ainda não li nenhum), aí além dos dois que consegui colocar nos desafios tem mais:

  • Noite na Taverna – Álvares de Azevedo
  • Histórias Extraordinárias – Edgar Allan Poe

 

Total (fora a leitura do mês de julho do CLO): 9 livros.


 

Grupo do Facebook da Maratona: https://www.facebook.com/groups/MLdeFerias/

Planner de controle dos desafios feito pela Dear Maidy:


 

 Que os jogos comecem.

 

A Redoma de Vidro – Sylvia Plath

A normalidade é tão-somente uma questão de estatística

Aldous Huxley

O quão normal nós realmente somos? Eis a pergunta que não sai da minha cabeça depois de terminar de ler A Redoma de Vidro, da Sylvia Plath. Eu sabia muito pouco sobre o livro, só que está em quase todas as listas de leituras feministas e que trata sobre suicídio e depressão. Eu não sabia o final, não sabia o meio, nem a trama. De certa forma, cheguei desarmada para a obra, só com aquela sensação comum de que todo livro que trata dessa temática é meio dramático e “deprimente”. Eu não leio dramas, mas isso é assunto pra outra postagem. O que quero dizer é que é sim sobre suicídio e depressão, mas não é nada dramático e deprimente. Ao contrário, talvez seja um dos livros mais sobriamente poético que já tive oportunidade de ler.

Também li, depois, que é meio autobiográfico. A autora passou por uma crise de depressão tal como a personagem principal da obra, e talvez essa veia de relato pessoal seja o que transforma esse livro em uma grande preciosidade e faça com que ele fisgue aquele nosso íntimo mental sobre a caixa de certezas na vida. O que mais me impressionou foi a racionalidade no pensamento da Esther Greenwood. A sensação é, desde o início, de que tem alguma coisa estranha no mundo em volta dela. Uma espécie de vazio nas relações que os outros estabelecem consigo, um cansaço ocasionado pela drenagem que a vida e as pessoas fazem conosco, que o estilo de vida urbano, descolado e frenético, causa com seus avanços de sinal vermelho. Mas todo esse estranhamento fica como uma pequena sensação, mal estar, até que tudo desmorona.

Se ser neurótico é querer ao mesmo tempo duas coisas mutuamente excludentes, então eu sou uma baita de uma neurótica. Vou ficar correndo de uma coisa para outra pelo resto da minha vida.

E desmorona sem que se perca a racionalidade do pensamento da personagem. O que é incrível, porque sempre temos aquela ideia da loucura como uma coisa anômica. Anomia é um termo de Durkheim que busca justificar todas os desvios do “socialmente aceito” como a ausência de laços fortes de coesão social, como o que não pode ser explicado pela sociedade por não possuir valores, uma espécie de defeito social. E quando pensamos em defeito, pensamos dentro de um parâmetro do que é considerado funcionar normal em relação a tudo que tangencia esse comportamento. Eu não sou formada em psicologia e nem entendo muito do assunto, possível razão pela qual tenha me surpreendido tanto com a obra. Percebemos que a depressão que vai tomando conta não é aquela coisa “externa” que muita gente acha que se pode simplesmente combater sozinho, e como se sucumbir à ela fosse uma demonstração de fraqueza.

(…) Na verdade o problema é que eu sempre fora inadequada, só não tinha pensado nisso ainda.

O que A Redoma de Vidro me mostrou é que a gente, na verdade, não sabe bem quando é o limite entre o normal e o não-normal. Quando se está estável e não se está, e o quanto as pressões do mundo estão te afetam. Durante a leitura, você só percebe que as coisas estão “em um ponto crítico” quando a própria Esther também percebe. É como uma súbita queda de montanha-russa que você não tinha a menor ideia do quão íngreme seria, do quanto a força do vento te jogaria para um lado ou para o outro, te forçando contra o assento ou fora dele. E tudo que te resta é segurar na barra de ferro com aquela súbita fé de que ela esteja bem encaixada para não caíres. Não tem uma explicação defnitiva – provavelmente a ciência já deve ter várias hipóteses – de porque exatamente acontece a depressão. A única “certeza” é que ela pode acontecer. Com qualquer um. A qualquer momento. E que nem de longe, é uma manifestação da irracionalidade humana.

Sylvia Plath fala, portanto, sobre essa redoma forjada nessas expectativas sociais que nos envolve num ar vicioso e sufocante até que nada nos reste. Cada um tem sua redoma, com seu próprio material, que a medida em que são acrescentados pesam até o ponto onde não não mais podemos sustentá-la afastada de nossos corpos. Como a porta de elevador que já não se deixa mais segurar e se fecha de súbito num ultimato.

Sobre o aspecto feminista do livro:

Impossível não se conectar de imediato as “neuras” que rondam a cabeça de Esther Greenwood. Em algum momento, sobretudo quanto mais vamos saindo da adolescência e ingressando na tal fase adulta, esses dilemas sobre casamento, filhos, carreira, corpo e sexualidade são cada vez mais frequentes em nossas mentes. Todas essas decisões que parecem ser (e deveriam) tão pessoais, trazem um impacto coletivo quase devastador sobre nós. “A idade para casar”, “ficar para titia”, “se dar o respeito”, “instinto materno”, “cuidar do lar”, “ser a emoção”, “moça recatada”… Tudo isso está no nosso dia a dia, desde antes de nascermos. Ainda nas barrigas de nossas mães, a pressão do que vamos ser e de como seremos educadas e enxergadas pela sociedade já está ali . Não que o homem também não sofra suas próprias pressões – o sistema patriarcal atinge a todos, mas dele não é esperado a submissão. Do homem é esperado e ensinado, que seja um conquistador (dominador), de universos, mundos ou dos seus iguais.

 

 

 

 

Amarelopó

O céu parecia uma grande íris azul sem fim. Aqui e acolá umas manchas de branco, como pequenas cataratas, pontilhavam pelas bordas daquele círculo infinito. No meio, o amarelo iridescente se expandia tão forte e veloz que parecia um continuum eterno, de muitos anos, inesgotável e tão intenso que o seu centro machucava os olhos. Sabia que estava ali, em algum lugar no meio de todo aquele calor, um pequeno ponto que se implodia em luz e fogo e aquecia dos mais moles aos corações diamantados. Derretia, fundia, secava, tudo em um processo interminável. Mudava as cabeças, as ideias, o foco, o sentido da vida. Tomava tudo para si, numa voracidade que arrastava os que se deixavam levar e aqueles que nem sabiam o que acontecia até virarem o próprio pó.

Existiam aqueles tipos de pessoas que nunca haviam deixado de ser pó. Voavam soltos, se espalhavam, se misturavam, se perdiam no infinito para depois tão certeiramente como se planejado, esbarrassem em si mesmos, num reencontro inesperado. Desprendidos e sem temor, circulavam pela brevidade do tempo sob aquela íris azul, muitas vezes encarando-a de volta a fim de descobrir seus segredos, não notando que eles estavam justo ali, na sua própria existência de pó fundido. Alguns outros viravam pó seco antes do tempo, a latência do amarelo lhes impingindo uma escuridão de pontos pretos, de bordas coloridas vazadas que piscavam e piscavam até tornarem-se uma grande mortalha que lhes devolvia ao pó original. E também voavam, carregados e espalhados, prontos para serem remodelados de maneira mais resistente a iridescência do pequeno ponto. Alguns alçavam tão alto que beijavam, queimados, a luz amarela, na esperança de lhe cair nas boas graças.

Mas em seu continuum vazamento e calor, ela era fria, de um frio constante, dos que congela e queima tanto quanto o calor. O mesmo calor que aquecia a íris azul, que brincava com o pó e que conservava todas as existências, tomando-as num ciclo infindável de Nada. Sem nunca acalmar seu pequeno ponto, com implosões eternas de fúria e gelo, queimando e criando o próprio tempo. Tentando se consumir até o limite para descansar como pó, para o conforto da inexistência absoluta, que se encerra no distanciamento irrefreável de todas as cores que não o amarelo, na beleza do colorido vazado do além-tempo. O amarelo não lhe bastava.

Alessandra Bastos
Escrito em 21/06/2016 pela manhã.