Meia-noite e vinte e os anseios de pertencer a geração “líquida”

Ou sobre ter que lidar com a "falsa promessa" da juventude

Meia-noite e vinte é o título do romance do escritor brasileiro Daniel Galera. Eu já escutei muito falar nele por conta do “Barba Ensopada de Sangue”. Peguei o Meia-noite por indicação de um colega do clube do livro que participo. Durante a fala dele explicando as impressões de leitura, fui conquistada pela afirmação de que o Galera estava se saindo um excelente cronista geracional. Como alguém que sabia transportar pra literatura dele os dilemas e marcas existenciais dessas pessoas que nasceram entre 80 e 90. Além de dar a entender o tom de trabalhar elementos da “liquidez” da vida moderna, ou pós-moderna, se a gente pensar que estamos falando aqui de um conceito de Bauman.

Não vou entrar aqui no mérito científico se estamos ou não vivendo na pós-modernidade, se as estruturas sociais tradicionais se fragmentaram, estão ruindo, etc. O ponto é, que está processo um deslocamento de identidade que se iniciou há muito tempo, a partir do momento em que nascer numa classe social não significava mais morrer nela. Ou ser de uma classe social era não poder ter acesso a elementos que tradicionalmente são de outras, superiores. Se é um estado de liquidez, não me cabe discutir, mas há, certamente um estado de ‘fluidez’ das relações sociais que é fortemente atrelado a vida nas cidades e aos macro-processos de modernização como burocratização, ampliação da difusão pelos meios de comunicação, financeirização do mercado, expansão tecnológica, ampliação dos direitos sociais etc.

E o que isso tem a ver com o livro do Daniel Galera? De acordo com a sinopse, nada. Mas, eu não estaria escrevendo esse texto se não achasse que tivesse tudo a ver. A história em si é bem simples: Começa com a morte de um escritor famoso e a reunião dos amigos dele da época da faculdade. Trata-se de como esse evento mórbido reflete na vida dessas outras três pessoas. Na época da faculdade deles, meados do final dos anos 90, essa turma criou um zine que fez muito sucesso na internet, o Orangotango. Zine ou e-zine é um tipo de publicação periódica que se coloca num site, tipo um blog, e também se envia a partir de um catálogo de e-mails de pessoas inscritas. Hoje em dia eu acho que já não é tão usado quanto era naquele período de final de noventa e início do milênio, quando você tinha html básico, o flash player era algo ‘ultramoderno’ e a internet não era tão acessível como é hoje em dia. A questão no livro é que eles se tornaram ícones, precursores de toda uma geração online.

E a morte do ‘Duque’, o criador e espécie de líder da época do e-zine, traz de volta todo o choque da realidade de cada um dos personagens com a ‘realidade’ deles no passado, durante aquele momento em que eram ‘mitos da internet’. O livro é permeado por um sentimento nostálgico, de como se eles aos 30/40 anos tivessem chegado a conclusão de que o ápice da vida fora durante aquela juventude juntos. É como se eles tivessem que fazer uma auditoria sobre a falsa promessa de quando se é jovem e o mundo parece ali, só esperando para ser conquistado e transformado, e o que efetivamente acontece. De como essa liberdade de escolha se revela numa sucessão de escolhas feitas, não a partir de uma liberdade ‘livre’, mas fortemente condicionada por elementos coercitivos latentes. Por que isso me lembra a liquidez? Por que todos eles passam por uma espécie de crise existencial e insegurança. Do mais ferrado na vida ao mais bem-sucedido, existe uma espécie de vazio de propósito que faz com que a reflexão do livro seja mais incômoda do que a própria leitura dele.

“Eu tinha publicado três textos contando essa história no Orangotango. Eram relatos estrategicamente sentimentais, mesclados ao relato da minha viagem egotrípica a Penedo, nos quais eu tentava mistificar a história da minha família com o propósito traiçoeiro de, na conclusão do terceiro texto, debochar do conservadorismo político dos meus pais e avós, e também do meu bisavô, que havia fugido covardemente de um experimento social utópico na Serra Fluminense. Agora eu tinha minha própria família e minha própria empresa, me doía lembrar que outrora havia zombado da vida deles para ganhar pontos com meus leitores”. (p.98)

Quando jovens, eles queriam ou viam a geração anterior a eles como mais pacata, monótona e passiva, mas então, descobrem estar, na frase boa de Belchior “como os nossos pais”. Não necessariamente seguindo ou fazendo as mesmas escolhas, mas percebendo que muitas das escolhas são feitas pela necessidade e não pela mera vontade. Que aquela vivacidade da juventude se modifica e se transforma em preocupações mais materiais do viver, do viver no mundo que implicam algumas “regras do jogo” que não parecem ser tão fáceis de burlar quando você efetivamente precisa dela. Que a vida, sobretudo urbana e acelerada com todos os processos modernizantes, é como um redemoinho furioso que te arrasta e te sufoca pelo excesso de informação. E que a liberdade das “amarras sociais”, sobretudo online, é só um simulacro porque elas continuam ali, com suas novas formas de coerção sutis e fluídas.

O livro têm muitas outras discussões legais, nessa linha da modernidade, que tratam sobre a ciência, por exemplo, já que um dos personagens é doutoranda. E só posso concordar com meu colega do clube do livro de que é um relato geracional mesmo. Mas ainda específico, relato daquela juventude urbana que cresceu já tendo acesso aos disquetes e ao ruído da conexão discada durante a noite porque de dia o telefone estava ocupado. É também um livro sobre pessimismo e estagnação em um mundo que era pra ser “o melhor já vivido pela raça humana”. Acho que em termos sociológicos, mais do que liquidez, é uma literatura que fala sobre o “desencantamento do mundo” e a “reflexividade” da modernidade a um nível individual.

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A História, as mulheres, Woolf e Austen

Ou sobre como enquadramento e “poder de fala” – narrativa, são recursos de poder.

Terminei de ler meu primeiro livro da Virgínia Woolf, inclusive, o primeiro livro que ela escreveu também. A Viagem (The Voyage Out) foi publicado em 1915 e levaram cerca de nove anos pra que ela finalizasse as mais de quinhentas páginas. Dentre os diversos trechos maravilhosos da obra, matuto e volto para alguns falados por Hewet. Terence Hewet é jovem, talvez boêmio, mas certamente idealista. Idealista no sentido de que ele tinha esse privilégio pela educação e pelo dinheiro. A gente pode ver pela construção do personagem, o círculo no qual ele se insere e de onde se formam suas impressões, mas a capacidade que ele tem em observar as coisas de um jeito que só posso descrever como “estético”. Ele é um escritor, e sua maior vontade é escrever um romance sobre o silêncio – “as coisas que as pessoas não dizem. Mas a dificuldade é imensa”. Em determinado momento da obra ele pergunta a Rachel Vinrace – nossa protagonista -, sobre a rotina dela. E ela questiona por que aquilo o interessa, ao que ele responde: “Em parte porque você é uma mulher” e segue na íntegra um fala que considero maravilhosa:

– Muitas vezes caminhei por essas ruas onde as pessoas vivem em casas enfileiradas, onde cada casa é exatamente igual a outra, e ficava imaginando o que será que as mulheres estariam fazendo lá dentro. (…) Pense bem: estamos no começo do século XX, e até poucos anos atrás nenhuma mulher jamais se manifestava por si mesma nem dizia coisa alguma. E essa estranha vida não-representada continuava acontecendo ao fundo, há milhares de anos. Naturalmente sempre escrevemos sobre mulheres… insultando-as, adorando-as ou desdenhando delas; mas nada jamais veio das próprias mulheres. Acredito que ainda não sabemos nem ao menos como elas vivem, ou o que sentem, ou o que exatamente elas fazem. Quando se é homem, as únicas confidências que se escutam de mulheres jovens dizem respeitos ao seus casos de amor. Mas as vidas das mulheres de 40, de mulheres descasadas, de trabalhadoras, de mulheres que têm lojas e criam filhos, de mulheres como suas tias ou Mrs. Thornbury ou Miss Allan… não sabemos absolutamente nada a respeito delas. Não nos contam nada. Elas têm medo, ou então descobriram uma maneira de tratar os homens. Sabe, é o ponto de vista masculino o que se manifesta sempre. Pense num trem: 15 vagões para homens que querem fumar. Isso não faz seu sangue ferver? Se eu fosse uma mulher, explodiria a cabeça de alguém. Vocês não riem um tanto de nós? Não acham isso tudo uma grande farsa? Vocês, quero dizer… como é que tudo isso lhes parece? (p.321-322)

Pausa para dar uma respirada.

 

Quando li, revirei, voltei, passei, reli de novo esse trecho, tantas coisas me vieram a cabeça. Eu podia passar horas escrevendo todas as impressões que ele me causou e que ainda me causa, enquanto estou aqui, forçando meus pensamentos a se ordenarem para poder escrevê-los. É o ponto de vista masculino o que se manifesta sempre. Foi assim durante muito tempo, e continua sendo assim em muitos aspectos, há mais de cem anos desde que Virgínia Woolf escreveu esse preciso trecho. A História, aquilo que se considera como a Grande História, dos ciclos, das Eras, é predominantemente masculina – os Agentes são masculinos. O que é considerado apto no mainstream do imaginário histórico e cultural da nossa sociedade é masculino. Foi escrito por homens e, aparentemente, vivido unicamente por eles. Mesmo a ciência é assim! É ingênuo pensar que a história das ciências seja neutra e, portanto, para além das relações de gênero.

Quer dizer que não houveram mulheres? E as rainhas inglesas? E Marie Curie? Mary Shelley? Sim, houveram mulheres, mas a questão é que houveram muitas outras mulheres. E onde elas estão? O que foi dito sobre elas? O que poderia ser dito sobre elas? Elas não ocupavam cargos de poder, não tinham voz, não tinham peso nas relações que se estabeleciam em contextos macro-políticos e macro-históricos, exceto em momentos e por condições específicas. Por que o processo de urbanização do centro londrino e a criação dos shopping centers e das vitrines foi interessantes em Convent? Por que as mulheres agora podiam passear sozinhas ou ir as compras sem serem “mal-vistas”. Por que Jane Austen só escrevia sobre casamentos? Por que era o único meio que uma mulher poderia ascender socialmente ou ter bens – mulheres não tinham direito a herança, mulheres opinavam no doméstico, porque o público era censurado à elas. Por que Rachel Vinrace teve conflitos com a ideia de casamento? Por que ela estava descobrindo a si mesma depois de ter sido criada numa bolha e o casamento trazia uma ideia de absorção do “eu” pelo homem. Por que a maioria dos artigos científicos e livros das ementas disciplinares de ciências sociais são composto por autores? Por que não existe autoras?

Um trecho e tantas perguntas. Aliás, ainda tenho muitas outras. Mas o que quero passar, talvez de forma efusiva, é que o enquadramento e “poder de fala” são recursos de poder. No sentido power over, bem weberiano, de conduzir alguém a fazer o que você quer. E até esse conceito de poder é masculino porque a ideia de submissão é incrustada nele com referências ao poder patriarcal. Quando você narra, você não conta só uma história, você imprime nela todas as suas convicções e impressões mesmo que escondidos sob o véu discursivo da impessoalidade. Quando temos uma História e uma Ciência de autoria predominantemente masculina, silenciamos as vozes de muitas mulheres, que por razões que não cabem nem fazer digressão aqui, tem desvantagem (criação, jornada dupla, etc, etc). E como ele diz: isso não faz o seu sangue ferver? Inclusive, em um primeiro momento é até irônico que esse rompante tenha sido vocalizado por um personagem masculino. Mas, se foi intencional ou não da Virgínia, tem todo sentido. Hewet é o único personagem capaz de enxergar esse complexo. Hewet é o que Rachel poderia ser se não fosse uma mulher – no sentido do que significa ser mulher nessa sociedade. Rachel seria Hewet, se tivesse sido despertada e livre para pensar e agir na vida, coisa que vai adquirindo nessa viagem. O que me faz concordar quem “A Viagem” não se trata só da viagem que ela fez fisicamente de Londres para Santa Marina (na América do Sul, mais precisamente aqui na região norte do Brasil, embora isso seja inferência de leitores), mas a própria ideia de viagem como jornada.

E o que a Jane Austen tem em tudo isso?

Esse trecho me lembrou, imediatamente, uma passagem do livro Persuasão da Jane Austen – que olha só a ironia, é citado e tem um parágrafo lido em voz alta em um momento  nesse livro da Virgínia. Em determinado momento de Persuasão, temos o Capitão Harville discutindo com Anne Elliot sobre como o amor das mulheres é mais efêmero que o dos homens:

– Por mim não há pressa. Só estarei pronto quando o senhor estiver. Estou muito bem ancorado aqui – sorrindo para Anne –, muito bem-abastecido, e não me falta nada. Não estou com pressa nenhuma de receber qualquer sinal. Bem, srta. Elliot – baixando a voz –, como eu ia dizendo, penso que nunca vamos concordar em relação a isso. Provavelmente isso seria impossível para qualquer homem e qualquer mulher. Permita-me observar, porém, que todas as histórias contrariam o que a senhorita diz… todas, em prosa e em verso. Se eu tivesse a mesma memória que Benwick, poderia lhe recitar em um instante cinquenta citações que corroboram a minha teoria, e não acho que jamais tenha aberto um livro na vida que não tivesse algo a dizer sobre a inconstância feminina. Todas as canções e ditados mencionam o temperamento volúvel da mulher. Mas a senhorita vai me dizer, talvez, que eles foram todos escritos por homens.

– Talvez eu o diga. Sim, sim, por favor, não vamos nos referir a exemplos de livros. Os homens tiveram todas as vantagens em relação a nós no que diz respeito a contar sua versão da história. Eles tiveram uma educação muito mais refinada; a pena sempre esteve em sua mão. Não vou aceitar nenhuma prova tirada dos livros.

Eu sou suspeita para falar da Jane Austen, e acho que estou me tornando suspeita pra falar sobre Virgínia Woolf também – na verdade, a própria Virgínia é suspeita pra falar de Jane, mas não deixa de ser instigante o modo como essas duas autoras em diferentes períodos apontam para a mesma questão crucial da desigualdade entre homens e mulheres: o protagonismo. O espaço para falar e ser escutado. A razão porque, por exemplo, é importante discutir representatividade feminina nas casas legislativas, nos órgãos de justiça, nos cargos de chefia. Discutir por que, no século XXI, com os “avanços” sociais trazidos pelos movimentos sociais – pelo movimento feminista, ainda sofremos um sério problema no entendimento de “local de fala”. São séculos, séculos, de apagamento feminino, de uma História quase toda de homens, contada por homens, e por muito tempo, voltada para os homens.

Eu realmente amei A Viagem.


Links interessantes:

O perigo de uma história única – Chimamanda Ngozi Adichie

O olhar de Virgínia Woolf sobre Jane Austen – Francine Ramos no Livro&Café.

Mulheres e o campo científico – Leonel Salgueiro no Circuito Acadêmico.

É isso.

Projeto de leitura 2017

Depois do fiasco que foram meus planos de leitura de 2016 eu decidi: continuar sendo ambiciosa. Fazer o quê. Mas uma ambição diferente. Dessa vez em vez de trabalhar com quantidade de livros a serem lidos, eu tô trabalhando com livros que “deveria ler”, mas sempre enrolei. Livros que eu acompanhei resenhas ou listas de favoritos de outras pessoas e que estavam presentes também em filmes que eu gosto, mas que nunca tive coragem de meter a cara. A verdade é que desde o ano passado meu gosto literário andou se modificando e ainda tô com “aterro em consolidação” nessa nova área menos contemporânea de leituras.

Me apropriando do projeto da Tatiana Feltrin de 12 livros para 2017, pretendo ler, no mínimo, esses 12 livros ao longo desse ano. Assim, se não der pra ler a média de 3 ou 4 por mês, me comprometo em pelo menos terminar esses que separei. E espero que dê certo. Mas tem um bônus também, é claro, porque a ambição não tem limites aqui, só que eles ficam pro final do post.

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SESSÃO BÔNUS

Então é isso. Pelo menos esses 12 livros saem esse ano! Fé que vai! Mas como eu andei revendo a lista, tá bem masculina a situação, né? Resolvi colocar umas leituras bônus pelo meio do caminho:

  • Como Conversar com um Fascista – Marcia Tiburi
  • Quarto de Despejo – Carolina Maria de Jesus
  • Perto do Coração Selvagem – Clarisse Lispector
  • Frankenstein – Mary Shelley

 

E também tentar pagar uns devidos do ano anterior que me dão vergonha não ter conseguido ler ou terminar:

  • Trilogia do Senhor dos Aneis – J. R. R. Tolkien
  • On the Road – Jack Kerouac

 

Basicamente, 2017 é o ano em que vou ler no mínimo 12 livros só-que-na-verdade-são-vinte-porque-senhor-dos-aneis-conta-como-três. E fora, evidentemente, os livros do clube do livro online, que são um por mês e também tem maratonas. E se você tiver a fim de participar, só ler aqui nosso projeto literário pra 2017.

 

Tema do ano: Do. Or do not. There is no try.

Yoda.