Leitura crítica

Quem escolhe vida acadêmica sabe que chega um ponto onde as leituras são tantas que é quase impossível conseguir se recordar de tudo. E aí a sensação é de que você é fisgada por um redemoinho de informações sem sentido e propósito. Esse é um dos primeiros grandes baques de quem entra nos cursos de “humanas”: a quantidade de leitura e o aparente curto espaço de tempo para absorção de conteúdo. A estrutura de ensino de algumas universidades acaba induzindo a busca de resumos na internet, ou simplesmente, a seguir o baile na hora das discussões em aula com achismos em cima dos achismos dos outros.

Acredito que isso seja absolutamente normal não só no início do curso como em qualquer estágio de aproximação a um tema desconhecido. As ciências humanas, lato sensu, trabalham em cima de valores, de normas, de aspectos culturais coletivos e individuais por onde as pessoas tecem o sentido do mundo a sua volta e sobre si mesmas. O pesquisador de ciências humanas não está, em nenhum momento, fora dessa dinâmica social que ele próprio estuda. A primeira aproximação é feita a partir dos seus próprios valores e visões e o reconhecimento disso já é um grande avanço na desmistificação da neutralidade científica. Ela não existe. Nem mesmo nas ciências exatas ou biológicas. A motivação para a pesquisa, as observações e as consequências dos resultados dos experimentos, em maior ou menor grau, são sociais também, mesmo que o objeto seja “quântico”, “geológico”, “químico”, etc.

E o que isso tem a ver com a leitura crítica? Bem, tudo. A leitura crítica é o desenvolvimento da capacidade de intelecção e interpretação dos textos. Ela não se trata de “procurar” falhas nos textos ou discordâncias, como o termo “crítica” comumente é associado. A leitura crítica é compreensão e explicação do que é dito de forma expressa e não expressa em um texto. Aqui, especificamente, um texto acadêmico. Se estrutura a partir de três perguntas principais:

 

Qual o propósito do texto?

Quais as questões-chaves apontadas?

Quais suas principais conclusões?

 

Vamos fazer uma análise da reportagem do Nexo Jornal sobre o arquivamento da denúncia contra o Temer, que saiu ontem 2/8/17. Como é um texto jornalístico, seu sentido e propósito são mais claros do que outro tipo de texto porque ele precisa, em essência, ser informativo.

 

1. Qual o propósito do texto?

O propósito do texto é bem definido pela manchete da reportagem: apontar que razões foram predominantes na arquivação da denúncia de corrupção passiva do presidente. O argumento principal é que a negociação intensa do governo com os parlamentares e a necessidade de finalizar e prosseguir com as reformas estruturais antes das eleições de 2018 contribuíram, mesmo a despeito da opinião pública negativa, para que o processo fosse arquivado.

 

2. Quais as questões-chave apontadas?

A autora da reportagem elenca três eixos principais que contribuíram para que Temer alcançasse o quórum mínimo a seu favor e discute cada um deles em separado. A saber: (1) ausência de adversários na articulação política — não surgiu nenhum nome que pudesse se fazer como alternativa de Temer, nem da linha centro-direita, muito menos da centro-esquerda; (2) apoio do mercado — apesar das oscilações, a constância do mercado financeiro foi uma demonstração de apoio e parceria a permanência do presidente e das políticas do executivo; (3) esvaziamento das ruas — Em comparação com outras votações emblemáticas, como a de abertura de processo de impeachment de Dilma, não houve protestos significativos em torno da votação da denúncia contra Temer.

 

3. Quais suas principais conclusões?

“Vitória não é sinônimo de tranquilidade” é como se encerra o último sub-tópico da reportagem. Embora Temer tenha conseguido barrar essa denúncia, os custos de uma provável segunda denúncia, mais qualificada do que a primeira, podem ser tão altos que ele já não terá como negociar com os parlamentares. Além disso, o andamento da lava-jato, a publicidade das delações premiadas em negociação, a incerteza do apoio do PSDB e a pressão por parte de empresários e elites para a aprovação da reforma da previdência são outros fatores que podem desempenhar papel fundamental num desequilíbrio na balança em que o governo do PMDB se encontra.

 

EXTRA: O OUTLINE OU RASCUNHO

 

Leitura crítica não significa apenas conseguir identificar esses elementos essenciais da intenção e conteúdo do texto, mas também extrair reações a leitura que podem ser emocionais ou mais “racionais”. Não significa que é preciso discutir cada vírgula de um texto lido, mas escrever as impressões causadas é importante. Que dúvidas surgiram? Que conexões foram possíveis ser feitas com outros textos e/ou fontes? Que emoções foram despertadas? Que trechos foram curiosos ou pareceram bons exemplos de síntese argumentativa?

É aí que entra o outline (ou rascunho), um texto breve apontando não apenas o que foi encontrado a partir das três perguntas fundamentais, mas também as impressões de leitura. Eu tenho algumas considerações sobre o texto, por exemplo: quais fatores podem estar por detrás do esvaziamento das ruas? Por que a esquerda não conseguiu se articular e agir como uma oposição efetiva? Qual o volume de emendas negociadas entre Temer e os parlamentares que votaram a seu favor? O que as obras de  Hirshman, Victor Nunes Leal e Jesse de Souza podem apontar nesse contexto? 

Existem modelos estruturados e métodos diferenciados para realizar um outline. Existe o texto corrido, quase um formato de resumo, existe a resenha simples, existem estruturas topicalizadas (tem gente que faz outline em forma de apresentação powerpoint), , existem os mapas mentais, existe o método Cornell, que trabalha com resumo de palavras-chaves, questionamentos e keypoints… Aqui não se trata de qual a melhor forma de condensar a leitura crítica de um texto, mas qual a que tem mais aplicabilidade para cada um. E, num primeiro momento, a leitura crítica vai parecer uma chatice, porque significa também parar e anotar, mas os registros quando se precisa deles, vão fazer valer a pena e diminuir o tempo de trabalho consideravelmente no fim.

 

 

*Imagem em destaque retirada do Free Images UK

 

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Fim da graduação

Hoje andei vasculhando meus arquivos do processo de seleção da pós-graduação, atrás do projeto que submeti ao programa pra ver qual foi a sequência que eu segui. De qualquer forma, meu projeto data exatamente de outubro de 2014, e apesar de já estarmos em novembro, ainda posso dizer que faz exatamente um ano que tomei a decisão de seguir “o caminho reto”, prosseguir nos degraus do que se chama de “vida acadêmica”.

É estranho pensar sobre isso, e até hoje me assusto sozinha ao lembrar que estou formada. Ano passado, nesse tempo, eu tentava articular a preparação para a seleção de mestrado com os textos de uma última disciplina e mais a organização do famigerado TCC. E claro, também tive que fazer o pré-projeto de dissertação que iria tentar a seleção.

Acho que nem de perto sou a mesma cabeça que era há um ano atrás, e isso é normal, afinal as pessoas mudam. É bem verdade quando dizem que a vida na universidade é definidora de quase todo o resto. Logo que eu entrei no meu curso eu imaginava uma coisa, entrei por um propósito e não pensava em nada diferente por um bom tempo, e se eu já sinto uma diferença grande entre o meu eu hoje, na reta final do primeiro ano de pós e o meu eu concluinte de graduação, o meu eu caloura é quase uma outra pessoa, uma desconhecida.

Mas esses três eu’s partilham da mesma certeza: de que não estamos preparados o suficiente.

Não acho que esse sentimento seja exclusividade minha, talvez seja um mal de geração, eu não sei. Mas estar em uma graduação, obter um diploma é meio que uma grande sensação de “E depois? E agora?”. Talvez a excessiva regulamentação e profissionalização tenha feito com que as pessoas pensem que tornar-se algo é uma mera questão de passar alguns anos em uma sala de aula, fazendo seminários e provas e obtendo um papel no final. Pronto, magicamente você é aquilo que você estudou. Só que se magia existisse eu e metade da minha geração estaríamos na “Bruxidade” e não aqui.

A verdade é que mesmo um ano após formada eu não me sinto “formada”. No meu caso, mesmo já tendo ministrado aulas voluntariamente, eu não me sinto nem apta a exercer minha licenciatura, e acima de tudo, mesmo tendo sido lapidada praticamente desde o início do curso nas vias científicas, eu definitivamente não me sinto bacharel ou cientista, stricto sensu. Meu diploma não me fez essas coisas, e ter entrado na pós não criou nenhuma sensação nova também, talvez só mais grandes questionamentos.

Mas de alguma forma louca, mudanças foram realizadas. Quais? É uma coisa que descubro a cada mês que passa. E a cada mês que passa a necessidade de “praticar” em mim é maior. Estudar é bom, mas trabalhar, exercitar toda aquela teoria aprendida deve ser bem melhor. Apesar de encarar minha pós como um trabalho, eu sei que ainda assim ela é um simulacro de profissão, de um jeito ou de outro, eu continuo protegida pelos muros da universidade e seu regimento como aluna. E vai chegando um tempo que a gente quer romper essas barreiras, mesmo cheios de medo.

Em alguns cursos isso é bem mais cedo, só uma graduação é suficiente, em outros demora um pouco mais. Mas acredito que a real sensação de que a graduação chegou ao fim é essa: a vontade de alçar voos maiores ser quase um comichão que não te faz ficar quieto. Uma vontade de se tornar de fato aqui que aquele diploma diz que você é, porque você não se torna algo pelo que um documento diz, mas pelo que você faz.

Conjecturas sobre Estado, desigualdade e obediência

A teoria política moderna é uma sucessão de discussões normativas sobre o tipo ideal de sociedade que deveríamos viver. Basicamente, e de forma bem generalista, o mote das teorias pós-Hobbes procuraram identificar formas em que o poder do Estado não massacrasse o povo. Ou seja, de que é preciso conter a tendência opressora do Estado (Leviatã).

Principalmente a partir de Rousseau, lida-se com a ideia de que a soberania não se configura no governo por si, ou vem de alguma escolha divina, mas de que ela é um elemento inalienável da população. O grande questionamento em torno dessas teorias é: por que obedecemos? Estamos tão acostumados a viver sob a tutela de um Estado que isso nos parece uma pergunta sem sentido. Mas formulando-a de outro jeito: se somos soberanos, por que nos submetemos ao Estado?

De fato, não se sabe em que preciso momento os homens constituíram a sociedade civil. As construções de “estado de natureza” dos contratualistas são teóricas. O que se tem certeza é da nossa socialidade humana, a partir da noção aristotélica. As sociedades não são um mal necessário, como dizia Hobbes; acabamos, por nossa “natureza” sendo impelidos a elas, e aperfeiçoando-as. Mas isso não significa de forma alguma que nos submetemos ao Estado por livre e espontânea vontade.

Fosse assim, a característica mais latente que diferencia o Estado de outros tipos de organizações sociais não seria necessária: a coerção pela violência. E aí, a pergunta se torna mais capciosa: se o Estado é uma construção social, e é violento, por que nos submetemos à ele? Será por que desconhecemos outras formas de organização social? Os aborígenes e os anarquistas tem uma opinião divergente sobre o assunto. A questão da obediência permanece então obscura.

Eu, particularmente, apesar de todas as ressalvas estou com Hobbes e Locke: acredito que a questão da obediência e da submissão ao Estado tem algo haver com o medo e com o caráter especial da propriedade nas sociedades ocidentais e ocidentalizadas.

Nos submetemos ao Estado porque temos medo de um mundo de “desordem”. Sem a oficialidade do império das leis, nos restringimos aos costumes e eles podem até manter a coesão social em pequenos grupos, em sociedade mecânicas, como iria dizer Durkheim, mas em grandes contingentes populacionais, com especialização dos trabalhos, aumento das desigualdades, a proximidade se dilui, e o outro vira um estranho. Um estranho que em um contexto de propriedades e desigualdade, se torna um inimigo em potencial. Hobbes, Locke e quase todos os teóricos da política moderna vão na linha da natureza humana: o problema das paixões humanas.

Alguns acreditam que a desigualdade é social, é construída pela relação de poder que se estabelece entre os homens (Rousseau), outros dirão que ela é um reflexo das diferenciações naturais entre os indivíduos, são consequências das próprias faculdades humanas (Federalistas). A síntese que fica, independente da linha, é a de que o estranhamento e as paixões humanas levam a violência e a violência leva a desordem – ou seria o contrário? E por isso, necessitamos do Estado. O que ele é? Um mediador. Uma força exterior que pode dar fim a desordem.

Eis então uma das razões porque obedeceríamos a essa estrutura complexa artificialmente criada por nós, porque a obediência ao império das leis lhe dá legitimidade para atuar. Talvez a comparação mais aproximada que posso fazer é que o Estado é um seguro. O conflito deve ser evitado, mas caso ele exista e haja prejuízos, haverá também reparações, dentro do Estado você encontra-se assegurado.


Observação (1): Evidentemente que a discussão feita acima é de caráter descompromissado e superficial. A questão da obediência segue em aberto e como um dos problemas centrais de toda a Ciência Política e Social em geral que depende de muitos outros fatores além do medo da desordem, desigualdade e propriedade. Meu objetivo não é escrever um tratado científico e isso se comprova pela própria estrutura do texto, com ausência da escrita científica padrão de referências e citações. É um exercício de reflexão pontuado, e não se pretende ser nada além.

Observação (2): Apesar de não ser acadêmico, os pensamentos desse post se estruturam a partir da leitura das seguintes obras: De Cive – Thomas Hobbes; Do Contrato Social – Jean-Jacques Rousseau; Segundo Tratado Sobre o Governo Civil – John Locke; O Federalista – John Jay, James Madison e Alexander Hamilton; The Nature of Political Theory – Andrew Vincent; Os Clássicos da Política 1 e 2 – (Org.) Francisco Weffort; As Regras do Método Sociológico – Émile Durkheim; Ensaios de Sociologia – Max Weber.

Observação (3): Imagem em destaque de Jay Mantri mostrando o ápice da socialidade humana, os grandes centros urbanos. O limiar entre a desordem e a obediência ao Estado.