Ler não é arte, é prática

Vez ou outra eu me deparo com as seguintes constatações: “Você lê muito!”, “És uma máquina de leitura!”, “Como consegues ler tão rápido?”. Com os anos e com os enquadramentos selecionados da minha vida que vão para as redes sociais (basicamente cultura pop, literatura e Harry Potter, porque ele merece um destaque a parte), acabei construindo uma imagem de leitora voraz. Tem gente que me pede conselho de livros, tem gente que diz que viu um livro e lembrou de mim, tem gente que me indica livros pra ler ou reportagens sobre literatura, tem gente que pergunta porque não cursei letras (fica aí o mistério pra mim também). O ponto é: além da imagem de que sou uma leitora assídua e meio fanática, nasce também a ideia de que isso, de alguma forma, me diferencia, como se ler fosse um tipo de arte ou prática estranha ao cotidiano.

O que é, convenhamos, um completo absurdo.

Já disse algumas vezes, e repito quantas outras forem, ler não torna ninguém especial. Não é um dom divino, não é uma qualidade superior. É uma prática, uma prática que quando estimulada se torna hábito. Qualidade e velocidade de leitura são construídas a medida que nós vamos nos construindo enquanto pessoas. Ler não transforma ninguém em enciclopédia, ou em doutor honoris causa das mazelas, desejos e paixões humanas. Nem mesmo um doutorado em ciências humanas faz isso, amigos. Assim como basicamente tudo na vida, ler é uma espécie de especialização. A gente lê o que gosta, e a formação de opinião que a leitura traz não depende exclusivamente dela, mas de um monte de outros fatores que corroboram na constatação de que ler não torna ninguém especial.

Minha prima tem 11 anos e dei de presente Harry Potter e a Pedra Filosofal pra ela (é claro, temos que começar a doutrinar desde cedo, mores). Três meses depois perguntei em que parte do livro ela estava, não tinha nem chegado a página 100. Já faz mais de ano que eu dei o livro, e ela tá longe de terminar. Lê devagar, joga bastante e assiste séries. Excetuado a velocidade, faço as mesmas coisas. Foi uma das pessoas que me perguntou como eu conseguia ler tanto, reclamando da sua lentidão, respondi que era questão de prática e que cada um tem seu tempo. Com 11 anos eu também não conseguia ler muita coisa.

Não existe prazer na leitura se você está mais preocupado com metas. Foi uma coisa que aprendi nos últimos dois anos. E olha que eu faço metas, mas se não as cumpro, não é o fim do mundo. Não adianta começar a ler e ficar preocupado em se encaixar no hype dos grupos literários que afloraram pela internet e também nas cidades – e isso não é uma crítica, podem surgir mais grupos que tá pouco -, você não é obrigado a comprar livros desenfreadamente, de tentar ler tantos quanto possíveis por mês, de não poder ficar sem ler os mais novos lançamentos ou comentados. Transformar a leitura em uma tarefa é o caminho errado pra… Bem, ser um leitor.

Sabe qual o segredo? Ler o que gosta e se entregar. Leia sobre o que você está a fim, e se ainda continua a fim, leia mais coisas sobre isso. Se estiver obcecado, leia obsessivamente, e se um dia se sentir confortável em “navegar em outros mares”, navegue. Se existe uma prática em que você pode arriscar com segurança, é na leitura. Mas se você simplesmente não estiver a fim nem de ler outdoor na rua, tá tudo bem também. Não leu nenhum livro esse mês? Tranquilo. Leu sete no mês seguinte? Que máximo. A única regra que eu deixo é: não pare completamente de ler. E se não tem o costume, mas tá afim: comece e vá “de boa na lagoa”. A leitura realmente não torna ninguém especial ou é um dom divino, mas que ela faz um bem danado, olha, não tem quem diga o contrário!

E sobre a minha prima? Pode não ter terminado A Pedra Filosofal, mas leu em dois dias um guia de curiosidades do universo de Star Wars, e um sobre uma aventura no Minecraft. Sabe o que isso soa? SUCESSO!


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Segue aí alguns textos legais sobre leitura:

Sobre a leitura, o amor, e o motivo pelo qual amamos os livros – Leitores Fantásticos

30 livros em um ano: que tal começar com 20 páginas por dia? – Homo Literatus

Brasileiro não gosta de ler? – Daqui do blog mesmo 🙂

Coisas de leitor: Ressaca Literária

Se você nunca teve uma ressaca literária…

Fica a dica pra uma experiência must-have na sua vida.

Acho que a ressaca literária é a prova mais concreta de como a leitura afeta a sua vida. Terminar de ler um livro e não conseguir parar de pensar nele, não conseguir começar outro, não conseguir não compará-lo com momentos ou outras leituras… Precisar, de alguma forma, prestar homenagem aquela leitura fenomenal fazendo posts-gifs no tumblr, fanarts, fanfics, montagens… É uma coisa muito louca. Afinal, o que teve demais? São só um monte de palavras dentro de um monte de páginas, certo?

Errado.

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Amor à Segunda Vista: Peças Infernais

Ou aquele relato de vida de leitor que um livro/autor que você nunca gostou, pode ser uma questão de momento e não de um desgosto definitivo.

Recentemente (uns dois anos, acho) lançou o filme “Cidade dos Ossos”, baseado no primeiro livro da série Instrumentos Mortais, de autoria da Cassandra Clare, cujo gênero é fantasia urbana. Como eu sou dessas que quer primeiro ler o livro pra depois assistir ao filme – Mas não daquelas que fica de cara emburrada apontando que já leu no livro e é diferente, porque né, paciência, gafanhotos, são duas mídias/linguagens distintas -, fui atrás da série.

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