A História, as mulheres, Woolf e Austen

Ou sobre como enquadramento e “poder de fala” – narrativa, são recursos de poder.

Terminei de ler meu primeiro livro da Virgínia Woolf, inclusive, o primeiro livro que ela escreveu também. A Viagem (The Voyage Out) foi publicado em 1915 e levaram cerca de nove anos pra que ela finalizasse as mais de quinhentas páginas. Dentre os diversos trechos maravilhosos da obra, matuto e volto para alguns falados por Hewet. Terence Hewet é jovem, talvez boêmio, mas certamente idealista. Idealista no sentido de que ele tinha esse privilégio pela educação e pelo dinheiro. A gente pode ver pela construção do personagem, o círculo no qual ele se insere e de onde se formam suas impressões, mas a capacidade que ele tem em observar as coisas de um jeito que só posso descrever como “estético”. Ele é um escritor, e sua maior vontade é escrever um romance sobre o silêncio – “as coisas que as pessoas não dizem. Mas a dificuldade é imensa”. Em determinado momento da obra ele pergunta a Rachel Vinrace – nossa protagonista -, sobre a rotina dela. E ela questiona por que aquilo o interessa, ao que ele responde: “Em parte porque você é uma mulher” e segue na íntegra um fala que considero maravilhosa:

– Muitas vezes caminhei por essas ruas onde as pessoas vivem em casas enfileiradas, onde cada casa é exatamente igual a outra, e ficava imaginando o que será que as mulheres estariam fazendo lá dentro. (…) Pense bem: estamos no começo do século XX, e até poucos anos atrás nenhuma mulher jamais se manifestava por si mesma nem dizia coisa alguma. E essa estranha vida não-representada continuava acontecendo ao fundo, há milhares de anos. Naturalmente sempre escrevemos sobre mulheres… insultando-as, adorando-as ou desdenhando delas; mas nada jamais veio das próprias mulheres. Acredito que ainda não sabemos nem ao menos como elas vivem, ou o que sentem, ou o que exatamente elas fazem. Quando se é homem, as únicas confidências que se escutam de mulheres jovens dizem respeitos ao seus casos de amor. Mas as vidas das mulheres de 40, de mulheres descasadas, de trabalhadoras, de mulheres que têm lojas e criam filhos, de mulheres como suas tias ou Mrs. Thornbury ou Miss Allan… não sabemos absolutamente nada a respeito delas. Não nos contam nada. Elas têm medo, ou então descobriram uma maneira de tratar os homens. Sabe, é o ponto de vista masculino o que se manifesta sempre. Pense num trem: 15 vagões para homens que querem fumar. Isso não faz seu sangue ferver? Se eu fosse uma mulher, explodiria a cabeça de alguém. Vocês não riem um tanto de nós? Não acham isso tudo uma grande farsa? Vocês, quero dizer… como é que tudo isso lhes parece? (p.321-322)

Pausa para dar uma respirada.

 

Quando li, revirei, voltei, passei, reli de novo esse trecho, tantas coisas me vieram a cabeça. Eu podia passar horas escrevendo todas as impressões que ele me causou e que ainda me causa, enquanto estou aqui, forçando meus pensamentos a se ordenarem para poder escrevê-los. É o ponto de vista masculino o que se manifesta sempre. Foi assim durante muito tempo, e continua sendo assim em muitos aspectos, há mais de cem anos desde que Virgínia Woolf escreveu esse preciso trecho. A História, aquilo que se considera como a Grande História, dos ciclos, das Eras, é predominantemente masculina – os Agentes são masculinos. O que é considerado apto no mainstream do imaginário histórico e cultural da nossa sociedade é masculino. Foi escrito por homens e, aparentemente, vivido unicamente por eles. Mesmo a ciência é assim! É ingênuo pensar que a história das ciências seja neutra e, portanto, para além das relações de gênero.

Quer dizer que não houveram mulheres? E as rainhas inglesas? E Marie Curie? Mary Shelley? Sim, houveram mulheres, mas a questão é que houveram muitas outras mulheres. E onde elas estão? O que foi dito sobre elas? O que poderia ser dito sobre elas? Elas não ocupavam cargos de poder, não tinham voz, não tinham peso nas relações que se estabeleciam em contextos macro-políticos e macro-históricos, exceto em momentos e por condições específicas. Por que o processo de urbanização do centro londrino e a criação dos shopping centers e das vitrines foi interessantes em Convent? Por que as mulheres agora podiam passear sozinhas ou ir as compras sem serem “mal-vistas”. Por que Jane Austen só escrevia sobre casamentos? Por que era o único meio que uma mulher poderia ascender socialmente ou ter bens – mulheres não tinham direito a herança, mulheres opinavam no doméstico, porque o público era censurado à elas. Por que Rachel Vinrace teve conflitos com a ideia de casamento? Por que ela estava descobrindo a si mesma depois de ter sido criada numa bolha e o casamento trazia uma ideia de absorção do “eu” pelo homem. Por que a maioria dos artigos científicos e livros das ementas disciplinares de ciências sociais são composto por autores? Por que não existe autoras?

Um trecho e tantas perguntas. Aliás, ainda tenho muitas outras. Mas o que quero passar, talvez de forma efusiva, é que o enquadramento e “poder de fala” são recursos de poder. No sentido power over, bem weberiano, de conduzir alguém a fazer o que você quer. E até esse conceito de poder é masculino porque a ideia de submissão é incrustada nele com referências ao poder patriarcal. Quando você narra, você não conta só uma história, você imprime nela todas as suas convicções e impressões mesmo que escondidos sob o véu discursivo da impessoalidade. Quando temos uma História e uma Ciência de autoria predominantemente masculina, silenciamos as vozes de muitas mulheres, que por razões que não cabem nem fazer digressão aqui, tem desvantagem (criação, jornada dupla, etc, etc). E como ele diz: isso não faz o seu sangue ferver? Inclusive, em um primeiro momento é até irônico que esse rompante tenha sido vocalizado por um personagem masculino. Mas, se foi intencional ou não da Virgínia, tem todo sentido. Hewet é o único personagem capaz de enxergar esse complexo. Hewet é o que Rachel poderia ser se não fosse uma mulher – no sentido do que significa ser mulher nessa sociedade. Rachel seria Hewet, se tivesse sido despertada e livre para pensar e agir na vida, coisa que vai adquirindo nessa viagem. O que me faz concordar quem “A Viagem” não se trata só da viagem que ela fez fisicamente de Londres para Santa Marina (na América do Sul, mais precisamente aqui na região norte do Brasil, embora isso seja inferência de leitores), mas a própria ideia de viagem como jornada.

E o que a Jane Austen tem em tudo isso?

Esse trecho me lembrou, imediatamente, uma passagem do livro Persuasão da Jane Austen – que olha só a ironia, é citado e tem um parágrafo lido em voz alta em um momento  nesse livro da Virgínia. Em determinado momento de Persuasão, temos o Capitão Harville discutindo com Anne Elliot sobre como o amor das mulheres é mais efêmero que o dos homens:

– Por mim não há pressa. Só estarei pronto quando o senhor estiver. Estou muito bem ancorado aqui – sorrindo para Anne –, muito bem-abastecido, e não me falta nada. Não estou com pressa nenhuma de receber qualquer sinal. Bem, srta. Elliot – baixando a voz –, como eu ia dizendo, penso que nunca vamos concordar em relação a isso. Provavelmente isso seria impossível para qualquer homem e qualquer mulher. Permita-me observar, porém, que todas as histórias contrariam o que a senhorita diz… todas, em prosa e em verso. Se eu tivesse a mesma memória que Benwick, poderia lhe recitar em um instante cinquenta citações que corroboram a minha teoria, e não acho que jamais tenha aberto um livro na vida que não tivesse algo a dizer sobre a inconstância feminina. Todas as canções e ditados mencionam o temperamento volúvel da mulher. Mas a senhorita vai me dizer, talvez, que eles foram todos escritos por homens.

– Talvez eu o diga. Sim, sim, por favor, não vamos nos referir a exemplos de livros. Os homens tiveram todas as vantagens em relação a nós no que diz respeito a contar sua versão da história. Eles tiveram uma educação muito mais refinada; a pena sempre esteve em sua mão. Não vou aceitar nenhuma prova tirada dos livros.

Eu sou suspeita para falar da Jane Austen, e acho que estou me tornando suspeita pra falar sobre Virgínia Woolf também – na verdade, a própria Virgínia é suspeita pra falar de Jane, mas não deixa de ser instigante o modo como essas duas autoras em diferentes períodos apontam para a mesma questão crucial da desigualdade entre homens e mulheres: o protagonismo. O espaço para falar e ser escutado. A razão porque, por exemplo, é importante discutir representatividade feminina nas casas legislativas, nos órgãos de justiça, nos cargos de chefia. Discutir por que, no século XXI, com os “avanços” sociais trazidos pelos movimentos sociais – pelo movimento feminista, ainda sofremos um sério problema no entendimento de “local de fala”. São séculos, séculos, de apagamento feminino, de uma História quase toda de homens, contada por homens, e por muito tempo, voltada para os homens.

Eu realmente amei A Viagem.


Links interessantes:

O perigo de uma história única – Chimamanda Ngozi Adichie

O olhar de Virgínia Woolf sobre Jane Austen – Francine Ramos no Livro&Café.

Mulheres e o campo científico – Leonel Salgueiro no Circuito Acadêmico.

É isso.

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