A Redoma de Vidro – Sylvia Plath

A normalidade é tão-somente uma questão de estatística

Aldous Huxley

O quão normal nós realmente somos? Eis a pergunta que não sai da minha cabeça depois de terminar de ler A Redoma de Vidro, da Sylvia Plath. Eu sabia muito pouco sobre o livro, só que está em quase todas as listas de leituras feministas e que trata sobre suicídio e depressão. Eu não sabia o final, não sabia o meio, nem a trama. De certa forma, cheguei desarmada para a obra, só com aquela sensação comum de que todo livro que trata dessa temática é meio dramático e “deprimente”. Eu não leio dramas, mas isso é assunto pra outra postagem. O que quero dizer é que é sim sobre suicídio e depressão, mas não é nada dramático e deprimente. Ao contrário, talvez seja um dos livros mais sobriamente poético que já tive oportunidade de ler.

Também li, depois, que é meio autobiográfico. A autora passou por uma crise de depressão tal como a personagem principal da obra, e talvez essa veia de relato pessoal seja o que transforma esse livro em uma grande preciosidade e faça com que ele fisgue aquele nosso íntimo mental sobre a caixa de certezas na vida. O que mais me impressionou foi a racionalidade no pensamento da Esther Greenwood. A sensação é, desde o início, de que tem alguma coisa estranha no mundo em volta dela. Uma espécie de vazio nas relações que os outros estabelecem consigo, um cansaço ocasionado pela drenagem que a vida e as pessoas fazem conosco, que o estilo de vida urbano, descolado e frenético, causa com seus avanços de sinal vermelho. Mas todo esse estranhamento fica como uma pequena sensação, mal estar, até que tudo desmorona.

Se ser neurótico é querer ao mesmo tempo duas coisas mutuamente excludentes, então eu sou uma baita de uma neurótica. Vou ficar correndo de uma coisa para outra pelo resto da minha vida.

E desmorona sem que se perca a racionalidade do pensamento da personagem. O que é incrível, porque sempre temos aquela ideia da loucura como uma coisa anômica. Anomia é um termo de Durkheim que busca justificar todas os desvios do “socialmente aceito” como a ausência de laços fortes de coesão social, como o que não pode ser explicado pela sociedade por não possuir valores, uma espécie de defeito social. E quando pensamos em defeito, pensamos dentro de um parâmetro do que é considerado funcionar normal em relação a tudo que tangencia esse comportamento. Eu não sou formada em psicologia e nem entendo muito do assunto, possível razão pela qual tenha me surpreendido tanto com a obra. Percebemos que a depressão que vai tomando conta não é aquela coisa “externa” que muita gente acha que se pode simplesmente combater sozinho, e como se sucumbir à ela fosse uma demonstração de fraqueza.

(…) Na verdade o problema é que eu sempre fora inadequada, só não tinha pensado nisso ainda.

O que A Redoma de Vidro me mostrou é que a gente, na verdade, não sabe bem quando é o limite entre o normal e o não-normal. Quando se está estável e não se está, e o quanto as pressões do mundo estão te afetam. Durante a leitura, você só percebe que as coisas estão “em um ponto crítico” quando a própria Esther também percebe. É como uma súbita queda de montanha-russa que você não tinha a menor ideia do quão íngreme seria, do quanto a força do vento te jogaria para um lado ou para o outro, te forçando contra o assento ou fora dele. E tudo que te resta é segurar na barra de ferro com aquela súbita fé de que ela esteja bem encaixada para não caíres. Não tem uma explicação defnitiva – provavelmente a ciência já deve ter várias hipóteses – de porque exatamente acontece a depressão. A única “certeza” é que ela pode acontecer. Com qualquer um. A qualquer momento. E que nem de longe, é uma manifestação da irracionalidade humana.

Sylvia Plath fala, portanto, sobre essa redoma forjada nessas expectativas sociais que nos envolve num ar vicioso e sufocante até que nada nos reste. Cada um tem sua redoma, com seu próprio material, que a medida em que são acrescentados pesam até o ponto onde não não mais podemos sustentá-la afastada de nossos corpos. Como a porta de elevador que já não se deixa mais segurar e se fecha de súbito num ultimato.

Sobre o aspecto feminista do livro:

Impossível não se conectar de imediato as “neuras” que rondam a cabeça de Esther Greenwood. Em algum momento, sobretudo quanto mais vamos saindo da adolescência e ingressando na tal fase adulta, esses dilemas sobre casamento, filhos, carreira, corpo e sexualidade são cada vez mais frequentes em nossas mentes. Todas essas decisões que parecem ser (e deveriam) tão pessoais, trazem um impacto coletivo quase devastador sobre nós. “A idade para casar”, “ficar para titia”, “se dar o respeito”, “instinto materno”, “cuidar do lar”, “ser a emoção”, “moça recatada”… Tudo isso está no nosso dia a dia, desde antes de nascermos. Ainda nas barrigas de nossas mães, a pressão do que vamos ser e de como seremos educadas e enxergadas pela sociedade já está ali . Não que o homem também não sofra suas próprias pressões – o sistema patriarcal atinge a todos, mas dele não é esperado a submissão. Do homem é esperado e ensinado, que seja um conquistador (dominador), de universos, mundos ou dos seus iguais.

 

 

 

 

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