Amarelopó

O céu parecia uma grande íris azul sem fim. Aqui e acolá umas manchas de branco, como pequenas cataratas, pontilhavam pelas bordas daquele círculo infinito. No meio, o amarelo iridescente se expandia tão forte e veloz que parecia um continuum eterno, de muitos anos, inesgotável e tão intenso que o seu centro machucava os olhos. Sabia que estava ali, em algum lugar no meio de todo aquele calor, um pequeno ponto que se implodia em luz e fogo e aquecia dos mais moles aos corações diamantados. Derretia, fundia, secava, tudo em um processo interminável. Mudava as cabeças, as ideias, o foco, o sentido da vida. Tomava tudo para si, numa voracidade que arrastava os que se deixavam levar e aqueles que nem sabiam o que acontecia até virarem o próprio pó.

Existiam aqueles tipos de pessoas que nunca haviam deixado de ser pó. Voavam soltos, se espalhavam, se misturavam, se perdiam no infinito para depois tão certeiramente como se planejado, esbarrassem em si mesmos, num reencontro inesperado. Desprendidos e sem temor, circulavam pela brevidade do tempo sob aquela íris azul, muitas vezes encarando-a de volta a fim de descobrir seus segredos, não notando que eles estavam justo ali, na sua própria existência de pó fundido. Alguns outros viravam pó seco antes do tempo, a latência do amarelo lhes impingindo uma escuridão de pontos pretos, de bordas coloridas vazadas que piscavam e piscavam até tornarem-se uma grande mortalha que lhes devolvia ao pó original. E também voavam, carregados e espalhados, prontos para serem remodelados de maneira mais resistente a iridescência do pequeno ponto. Alguns alçavam tão alto que beijavam, queimados, a luz amarela, na esperança de lhe cair nas boas graças.

Mas em seu continuum vazamento e calor, ela era fria, de um frio constante, dos que congela e queima tanto quanto o calor. O mesmo calor que aquecia a íris azul, que brincava com o pó e que conservava todas as existências, tomando-as num ciclo infindável de Nada. Sem nunca acalmar seu pequeno ponto, com implosões eternas de fúria e gelo, queimando e criando o próprio tempo. Tentando se consumir até o limite para descansar como pó, para o conforto da inexistência absoluta, que se encerra no distanciamento irrefreável de todas as cores que não o amarelo, na beleza do colorido vazado do além-tempo. O amarelo não lhe bastava.

Alessandra Bastos
Escrito em 21/06/2016 pela manhã.

 

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