A Letra Escarlate – Nathaniel Hawthorne

Eu tinha uma vaga noção da sinopse desse livro por aquele filme de comédia (meio pastelão) com a Emma Stone: A Mentira. Boa parte do filme tem várias referências a Hester Prynne, a protagonista desse livro. A Letra Escarlate é um clássico da literatura norte-americana e Hester Prynne é considerada a primeira heroína dos Estados Unidos. E que primeira heroína!

Eu demorei na leitura do livro, e ele nem é tão longo, é só que os capítulos são compridos e em alguns momentos, a narrativa é “maçante”. Não quer dizer que seja chata, muito pelo contrário, Nathaniel escreve lindamente, em vários trechos você não sabe se o autor está discorrendo sobre os valores e costumes sociais ou meramente narrando; a ficção parece se misturar com uma espécie de monólogo sobre a vida. Em termos gerais a história se passa em Massachusetts, ainda no período colonial dos Estados Unidos, como um recinto dos puritanos e numa época próxima aos episódios históricos sobre “bruxaria” naquele local – coisas que o autor pincela vez ou outra. Se centra na figura de Hester Prynne, mulher jovem que vai presa e é sentenciada a usar uma letra “A” vermelha sobre o busto como símbolo do seu crime de adultério, já que ela apareceu sem marido na colônia e de repente engravidou sem que ninguém soubesse quem poderia ser o pai.

O livro narra desde o momento que Hester sai da prisão, sua humilhação pública no cadafalso no centro da cidade, os anos de exílio nos limites da floresta com a filha, até sua “aceitação” não pela remissão do crime perante os membros da sociedade, mas pela sua postura sempre reservada e pelo seu trabalho como costureira. Mesmo exilada e estigmatizada, ela, de alguma forma, consegue se encaixar naquela pequena sociedade puritana, e modificar com o tempo, o seu papel e valor naquela estrutura. Hester, desde o início do livro, é uma mulher forte. Aceita as ofensas, as discriminações, o distanciamento, se resigna com sua “penitência” e dedica-se a filha, Pearl, cujo papel na narrativa é dividida entre ela ser um pequeno anjo que veio reafirmar o que Hester sempre sentiu no coração, que o seu “crime” nunca foi um “crime”, e um pequeno demônio, para ao contrário, marcar profundamente no peito e na eternidade a letra A de adúltera na mãe. Há uma curiosidade em saber quem foi o “parceiro de crime” de Hester no início, mas que se dissolve e não se torna de interesse público depois de um tempo. A letra escarlate é um fardo que ela carrega, publicamente, sozinha por muito tempo.

“Ninguém pode, por muito tempo, ter um rosto para si mesmo e outro para a multidão sem no final confundir qual deles é o verdadeiro.”

Como disse lá em cima, tanto os diálogos como os pensamentos dos personagens se revestem de discussões morais, sobre o bem e o mal, sobre o julgamento, sobre – em vários momentos – a inferioridade do papel da mulher, sobre os laços sociais de uma comunidade e como eles se sustentam ou se modificam com o tempo, sobre também, em muitos momentos, a hipocrisia. As regras invisíveis que são impostas, sendo testadas pela natureza “selvagem” de Pearl e pela calidez de Hester. O contraste entre a ideia que se faz de uma “mulher adúltera” e os princípios de Hester estão presentes em todo o momento do livro, a sombra do “pecado” sendo confrontada com a pureza de espírito que emana dela como mulher e como mãe. A Letra Escarlate é um livro poético, limpo, e que te faz refletir depois. E feminista sim, mesmo escrito por um homem.

Mulheres, especialmente — sempre tentadas por paixões equivocadas e pecaminosas, mulheres feridas, abandonadas, traídas, perdidas, ou ainda suportando o medonho fardo de um coração sem amor, portanto incapaz de amar —, dirigiam-se ao chalé para perguntar por que eram tão infelizes e se havia algum remédio para isso! Hester as consolava e aconselhava o melhor que podia. E asseverava-lhes, ainda, sua crença firme de que, numa época mais luminosa, quando o mundo estivesse amadurecido para tal, quando os céus assim quisessem, uma nova verdade seria revelada, de modo a estabelecer toda a relação entre homem e mulher num patamar mais afeito à felicidade mútua.


Recomendo:

Anúncios

2 comentários sobre “A Letra Escarlate – Nathaniel Hawthorne

  1. Monique Químbely disse:

    Amei a proposta do livro em contar a história de uma mulher adúltera numa época em que a consideram criminosa e ela tem de levar uma marca para que a reconheçam por esse crime. O título do livro não me é estranho, mas não lembro de ter lido qualquer coisa sobre ele. Seu encanto por ele me cativou, já coloquei na minha lista de leituras 🙂

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s