Mansfield Park – [Diário de Leitura 3]

Terceiro e último episódio desta saga.


Sinto que preciso falar sobre dois pontos, depois de ter encerrado livro. Ou talvez três, mas um meio que já foi dito aqui. E no fim, se pensar bem, todos os pontos se remetem ao mesmo assunto: a imagem da mulher. O primeiro é Miss Crawford, o segundo é Mr. Crawford e Maria, novamente, e o terceiro é o desfecho, em geral, da obra.

Não falei muito de Miss Crawford durante os outros dois diários. Miss Crawford é uma bela senhorita, irmã do boêmio Mr. Crawford, que tendo vivido em Londres, é “pra frente” em relação aos costumes do campo, e isso a faz ser bastante criticada por Fanny em muitos aspectos, e também por Edmund, mas não impede esse de se apaixonar por ela por seu conjunto “feminino”. Apesar das ideias, Miss Crawford tem um comportamento perfeitamente adequado a uma boa mulher: sabe tocar, sabe conversar, é delicada, preocupada, graciosa e tudo que seria necessário para se tornar bela, recatada e do lar. Não fosse a ausência de recato, sobretudo em suas opiniões sobre matrimônio e a ironia sobre a vida social em geral.

Comparada a Fanny, Miss Crawford é muitas vezes posicionada quase como uma golpista. Não quer um casamento pensando em amor ou valores sentimentais, mas em uma boa posição e rendas para que viva bem. A princípio é um pensamento superficial, se comparado a tudo o que Jane vem pregando através das suas protagonistas. Eu, entretanto, não consegui enxergar Miss Crawford como uma pessoa ruim, como uma antítese da própria Fanny já que há um triângulo amoroso não estabelecido entre elas duas e Edmund. Talvez o problema de Miss Crawford seja o mesmo que Elizabeth tinha: obstinação. Ela viveu experiências desagradáveis morando com a primeira tia, e viu coisas na sociedade londrina que a fez desacreditar e sempre duvidar da boa imagem que as pessoas da alta sociedade sempre buscavam passar, do recato feminino, da cortesia masculina, e da instituição de casamento, sobretudo em termos religiosos. Além disso, nesse próprio convívio, incorporou alguns desses comportamentos “corrompidos” e não conseguiu, durante todo o livro, abrir mão deles.

Acho complicado julgar ela da forma como Edmund e a própria Fanny a julgavam, mas aí é claro, estou sendo anacrônica na análise. A Miss Crawford é vista aos meus olhos contemporâneos como uma mulher independente, radical em suas opiniões por experiências tristes na vida. Naquela época, e num contexto de vida no campo, ela era vista como uma pessoa sem princípios. Claro que a opinião dela sobre o escândalo do irmão ao final, a tentativa de culpabilizar a Fanny, e a justificação do erro do irmão não pelo ato, mas pela publicidade não ajudam muito na imagem dela. Todavia, mesmo não indo com a cara de Edmund, certo estava ele quando diz que o problema dela é ser uma pessoa de boa índole corrompida pelo meio. Miss Crawford é a representação de que a degeneração dos bons costumes da sociedade inglesa está na vida cada vez mais urbana.

Quanto a Edmund, tive problemas com ele durante o livro inteiro. Ele é um banana. É um moralista, que, tudo bem, não faz nada tão grave que possamos qualificar como hipocrisia, exceto ser condescendente com muitas atitudes de Miss Crawford que iam contra seus princípios por estar apaixonado por ela. Mas, o modo como se apoia em Fanny e não enxerga que ela gosta dele, faz ela passar maus bocados quieta, tendo que aturar os problemas amorosos dele com Miss Crawford, e apenas no final, reconhecer o valor dela para além de um ouvido amigo, meio que me irritou. Eu não gosto de romances assim. Uma pessoa que realmente NÃO enxerga a estima da outra até tudo dar errado. Fica em mim o desaforo entalado na garganta, rs. Não é aqui que esteja torcendo para amores à primeira vista, ou que fique incomodada que tenha existido paixões anteriores, é só que a imagem que fica é que ele só se apaixona por Fanny ao enxergar nela uma mulher que poderia cumprir fielmente todo o papel ideal que ele atribui a uma esposa, e não por ela em si.

Por fim, sobre o escândalo que envolveu o Mr. Crawford e Maria… É triste como as coisas não mudaram muito até hoje, não é? O adultério choca, mas quem realmente sofre com os ostracismos sociais e críticas é muito mais a mulher do que homem. No livro, Maria realmente vai viver isolada, longe da família porque o crime é imperdoável… E Mr. Crawford? Bem, não diz exatamente o que aconteceu com ele, mas certamente que não teve o mesmo julgamento e sentença que ela. Semelhanças com alguns casos que aparecem por aí hoje em dia? Mesmo não tendo sido a melhor das personagens… Só posso dizer: pobre, Maria. Sofreu pelas suas escolhas erradas. Tanto racionalmente, quando sentimentalmente. Aliás, Mansfield Park pode ser bem resumido as consequências que quase todos os personagens sofreram por suas escolhas em relacionamentos. Só que diferente de Edmund ou de Mr. Crawford, eles puderam recomeçar bem, ela nem tanto assim.

Encerro meus diários de leitura de Mansfield Park mantendo a opinião de que foi a obra mais bem construída de Jane quanto as relações sociais, a força da moralidade no campo, ou a relativização dessa moralidade (não fica tão explícito, mas podemos entender que Sir Thomas era um escravocrata), a pressão sobre a mulher e a crítica a boa imagem e postura social que muitas vezes escondem comportamentos opostos do que os indivíduos tentam passar em público.

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