Mansfield Park – [Diário de Leitura 2]

O machismo e o patriarcalismo não existem até uma mulher fazer algo que não era socialmente esperado. Claro que não era exatamente isso que Jane Austen estava acusando lá no período regenciano (não nesses termos e com os mesmos significados de hoje), mas que a carapuça serve, ah serve…


Eu ainda não entendi bem o que aconteceu com Sir Thomas na viagem dele para Antígua, onde ele passa uma parte considerável do livro. No início ele é tão indiferente a Fanny e aos outros quanto sua mulher, Lady Bertram, só sendo afirmado inúmeras vezes seu brio moral e sua seriedade. De fato, podemos ver como a vida ‘politicamente correta’ em Mansfield Park vai se modificando quando ele viaja, tal como quando um chefe sai da sala e os funcionários voltam a relaxar. No seu retorno, as coisas voltam a “esfriar”, mas ele está diferente. Ele agora é um homem atento a sua volta, e sobretudo, atento a Fanny. É visível que considera que ela é a única com um comportamento decente, mesmo em comparação a suas filhas. Confesso que eu estava gostando desse Sir Thomas, depois de tanto destrato e tempo de escanteio, foram cenas deliciosas de se ler todas as vezes que ele interveio nos comentários de Mrs. Norris ou nas coisas que ela fazia para deixar Fanny o mais deslocada e incômoda possível.

Mas, como é visível, Jane não está buscando construir arquétipos de “boas” e “más” pessoas nesse livro. Talvez Mrs. Norris, não tenho como salvar ela. Todos os personagens, inclusive a própria Fanny com muitas cenas de puritanismo, tem qualidades e defeitos que não são tão caricaturados como nos outros livros de Jane. Você tem então, nessa segunda parte, um Sir Thomas que volta atencioso, mais alegre, receptivo a sua sobrinha, preocupado com seu bem-estar e que aprecia e incentiva sua participação, suas opiniões nas discussões. Só Edmund até então fazia isso, e muito mais quando eles estavam a sós. Mas aí, quando surge a oportunidade dos sonhos – Sim, Jane constrói tão bem essa oportunidade que até mesmo a gente, que sabe a situação da Fanny e também acompanha o lado de Mr. Crawford, inicialmente se exaspera com a recusa dela ao pedido de casamento dele – Sir Thomas se mostra inconformado com a posição da sobrinha, acusando-a de tudo que Mrs. Norris sempre disse, enxergando presunção em sua negativa, e desdenhando o que chama de “tendência ao espírito livre” das moças.

“Sir Thomas se aproximou da mesa diante da qual ela se sentava trêmula e miserável, e com grande frieza e severidade, disse: “Já vi que não adianta falar com você. É melhor terminarmos essa conversa humilhante. Mr. Crawford não deve ser deixado esperando por mais tempo. Assim sendo, como creio que é meu dever dar minha opinião sobre sua conduta, só acrescentarei que você desapontou todas as expectativas que formei sobre você e provou possuir caráter oposto ao que eu supunha, pois Fanny, como acredito que minha conduta demonstrou, eu tinha de você uma opinião muito favorável desde que voltei à Inglaterra. Acreditei particularmente que você não possuía um caráter teimoso, arrogante, com tendência à independência de espírito, tão comum nos dias de hoje, até mesmo nas moças, e que nas mulheres jovens é mais ofensivo e desagradável que qualquer ofensa comum. Mas você me mostrou que pode ser intransigente e perversa, que pode e que decidirá por si mesma, sem qualquer consideração ou deferência pelos que certamente têm certo direito de orientá-la, sem ao mesmo procurar aconselhar-se com eles. Você se revelou muito, muito diferente do que eu imaginei.” (p.240)

Como disse, eu mesma fui me frustrando com Fanny. Ela gosta do Edmund, mas ele não tá nem aí pra ela, banana que é pela Mrs. Crawford. Como lemos também o que acontece entre os irmãos, sabemos que, de alguma forma, Mr. Crawford reconhece estar apaixonado por Fanny e já não tenta seduzi-la pela diversão, mas porque quer casar com ela, fazendo o que está ao seu alcance para cair em suas graças. E por mais que ele seja quase um boêmio, ter ajudado o irmão dela faz com que ele ganhe muitos pontos aos nossos olhos. Aí ela vai lá e firmemente rejeita ele. Não dá para não pensar no lado racional… Qual saída ela teria se não ele? Ela iria preferir mesmo ficar o resto da vida à mercê das tias? Porque não agarrar a oportunidade de se libertar através de um casamento?

O problema é que somos carregados e esquecemos quem é Fanny. Fanny não é materialista, ela é simples, realmente não é uma pessoa de falsa modéstia, não imagina para si nada além de permanecer o resto da vida em Mansfield Park, naquela posição – Já que Edmund está totalmente perdido de amores pela Mrs. Crawford. E qual a vantagem de se casar por comodismo? Tal como a prima mais velha? Ela não é ingênua, ela sabe que tem personalidade distinta de Mr. Crawford, e que não conseguiria viver com ele. Apesar de todas as humilhações em Mansfield, talvez ser preterida seja mais uma vantagem para ela do que qualquer coisa, já que Fanny não gosta de ser o centro das atenções. Tudo o que Mr. Crawford oferece a ela mais soa como um tormento ao seu espírito tranquilo e reservado do que uma oportunidade de se libertar. E aí, quando reflito sobre isso, entendo Fanny, e volto a me posicionar do seu lado. Em um período onde a única forma de ascender e viver bem como mulher era através do casamento, a resolução de Fanny em não aceitar Mr. Crawford é um ato de pura subversão.

E é nesse ato, onde ela simplesmente se posiciona aos seus valores morais, é que surge a maior agressividade contra ela de todo o livro. Ela então se torna egoísta, irracional, domada pelo “espírito livre” de mulherzinha, arrogante, por não aceitar Mr. Crawford. E ele, por um gesto que visava mais cair em suas boas graças do que realmente por caridade, se torna então perdoável e modelo de bom caráter até mesmo para Edmund que presenciou o envolvimento quase libertino dele com Maria antes de ela casar. Quer dizer, há uma total inversão de julgamentos onde, claramente, Fanny é quase vista como louca por não querer se casar. E muito dessa loucura é atribuída a sua natureza “feminina”. A fala de Sir Thomas, tão atencioso e preocupado com a sobrinha, contrariado, revela as amarras sociais que parecem sempre tão invisíveis. E mesmo depois, quando ele se “resigna”, a resignação é só para dar um espaço a fim de que ela se desfaça da confusão e “clareie a mente”, a recusa dela não é levada a sério por ninguém, porque “a natureza feminina é volúvel”, e é sua timidez que deve estar atrapalhando seus reais desejos. Todos os homens: Sir Thomas, Edmund e Mr. Crawford vocalizam as razões porque Fanny não aceitou o pedido de casamento, sobrepondo e ignorando a razão que ela própria tantas vezes justifica. A opinião dela, fica claro, não vale nada.

Quer dizer… Mas que porra???!!!

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