Mansfield Park – [Diário de Leitura 1]

 Já tava com esse projeto há um tempo na cabeça. Influenciada pela Tatiana Feltrin, é claro, pensei em ir além das “resenhas” de livros e discutir mais abertamente minhas leituras por aqui. Não pensei em nenhuma sistematização para o funcionamento do diário de leitura além do básico: estou lendo um livro e quero comentar sobre o que eu li com liberdade. Então se você não leu e não gosta de spoilers, pare aqui. Mas hoje, podemos definir esse monólogo em “Fanny Price é digna!”


DO INÍCIO

Quem leu minhas metas literárias para 2016 sabe que participo de um Clube do Livro Online, mediado pela Karina do blog Da Literatura (a geminiana mais caprica que conheço <3), e que pretendemos fazer várias maratonas esse ano, a primeira tendo sido “O Clube de Leitura de Jane Austen” onde lemos todos os principais livros da autora. O prazo era até início de abril, mas as discussões serão iniciadas na próxima semana. Bom pra mim, que tô terminando o último agora. A ordem de leitura foi feita com base no filme de onde tiramos o nome pra nossa maratona, e não pela ordem de publicação original. Eu segui só o primeiro livro, depois fui lendo de forma aleatória, a partir das impressões das outras pessoas que já estavam mais a frente de mim na maratona. Não vou falar muito se não o post perde o foco, rs, mas o que interessa é que Mansfield Park era pra ser o segundo, e veio a ser o último livro que estou lendo.

Por quê? Porque ele era grande, e tinha acabado de sair de Emma, que também é, e cuja leitura foi enfadonha boa parte do tempo (não significando que tenha sido ruim ou que eu não tenha gostado!) e, muitas pessoas comentavam que a personagem principal era chata demais. Decidi deixar então pra último, e acho que foi uma excelente escolha. Depois de ter passado por todas as histórias e protagonistas da Jane, cheguei “mais madura” para entender a complexidade que atende pelo nome de Fanny Price e também que cerca a obra como um todo. Concordando com alguns críticos e com o prefácio do livro, acho Mansfield Park a obra mais redonda e madura de Jane Austen sim.


FANNY PRICE

Fiquei quase cinco dias só nas primeiras 40 páginas do livro. Achei o início chato, e baseado nas impressões alheias, esperava que o ritmo prosseguisse assim, já na certeza de que iria demorar pra ler Mansfield Park. Um belo dia decidi parar de adiar a leitura, sentei e voltei a ler sem ficar procurando os incômodos da história, e sim os louvores que havia lido no prefácio. Talvez ter lido Orgulho e Preconceito antes tenha sido um fator desmotivador. Já fui com olhos “preconceituosos” para Mansfield e tinha acabado de ler uma das mais lindas e maravilhosas da Jane. O cenário mental da leitura aqui estava totalmente desfavorável.

Mas, em uma tarde e noite, li 150 páginas. E tenho quase certeza em afirmar que a razão para esse enlace com Mansfield Park tenha sido justamente a mais improvável de todas: Fanny Price, a personagem principal.

Se compararmos com as outras protagonistas de Jane, Fanny é o desvio-padrão. Ela não é independente como Emma, irônica como Lizzy, simpática como Anne, espontânea como Catherine, benevolente como Elinor e quanto a Marianne? Não consigo nem comparar as duas, de tão contrastantes. Fanny é quieta, submissa e, preciso admitir, chorona. Todos os elementos para ser considerada uma personagem chata. Mas acho que só se não entendermos o contexto.

Diferentemente das outras mulheres de Jane, Fanny é a que possui a situação mais inferior, além da visível ausência de fortuna que acomete quase todas (menos Emma), Fanny mora de favor na casa de tios que a veem como uma grande ação de caridade. Não é que eles não gostem dela, mas eles não ligam, e a veem apenas um pouco acima de uma “governanta” ou criada. Além disso, existe a Mrs. Norris, que consegue ser pior que a Mrs. Dashwood e Razão e Sensibilidade. Mrs. Norris, na minha opinião, é a representação da Lady Catherine de Bourgh sem as posses. Se você eliminar a fortuna, as atitudes, opiniões e tratamento das duas são quase as mesmas. Mrs. Norris é o papel ativo que faz questão de a todo o momento, desde criança, esfregar na cara de Fanny o quanto ela deve ser agradecida as “oportunidades”, o quanto é inferior aos primos, e o quanto é “ingrata” ao menor sinal de indisposição da garota.

Eu não sei vocês, mas já morei na casa de outra pessoa. Nunca tive ninguém que chegasse perto da maldade de Mrs. Norris ou da indiferença de Lady Betram e Sir Thomas. Mas mesmo assim, morar na casa de outra pessoa é se submeter as regras dela. Você não tem muita voz, você não tem muitos direitos por ali também, é um favor da outra pessoa que te cede o espaço. E por mais legal que essa pessoa seja, você sabe que não tem liberdade o suficiente, que precisa prestar contas sempre, não porque ela esteja te obrigando, mas porque a casa não é sua. Eu tinha casa pra voltar, mas Fanny não. Eu sempre tive uma vida relativamente boa, Fanny foi para aliviar a pobreza da sua família. Eu fui para estudar, acolhida por alguém que queria me dar uma boa oportunidade, Fanny foi por uma leve crise de consciência dos tios ricos, e manipulação de Mrs. Norris, uma tia que nunca se preocupou realmente com ela, mas queria o benefício da “caridade”.

Quer dizer… Me admiro de Fanny não ser mais introspectiva e chorona do que ela é no livro. A situação dela é horrível! E acho que não foi pior porque Edmund, um dos seus primos, teve coração suficiente para sair da sua zona de conforto e cuidar para que ela se adaptasse, procurou conhecer ela de verdade. Mas mesmo assim, as ofensas de Mr. Norris, a visível superioridade das primas, a completa indiferença de Lady Bertram (ainda que ela não seja má com Fanny), a “bananice” de Edmund… Aguentar tudo isso sem ter para onde correr, ou quem escutar, porque ela é “sortuda” de ter sido apadrinhada pelos tios, é agoniante, e eu passei todas as páginas querendo tirar Fanny dali.

Mesmo com tudo isso, Fanny tem uma fibra moral admirável, reconhece sua situação e pela submissão lida com ela porque sabe que não tem o que fazer, que ser ousada não é bom para ela, mesmo nos momentos que ela deseja, porque ela também é muito grata pelo acolhimento dos tios. Fanny é forte, tão forte quanto qualquer uma outra protagonista da Jane Austen. E mesmo que não me identifique em quase nada com ela, precisei escrever esse diário de leitura só pra dizer o quanto admiro essa personagem, indo um pouco mais a frente do que disse acima, Fanny é um desvio-padrão sim, das personagens de Jane, mas só na superfície, no fundo ela tem toda aquela força feminina que amo nesses livros. Com ela, Jane comprovou pra mim o quanto é uma escritora brilhante e versátil.

Vou me impôr e dizer: só não enxerga isso quem não quer, ou não leu.

* Imagem retirada do site Another Library.
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3 comentários sobre “Mansfield Park – [Diário de Leitura 1]

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