Literatura e apropriação cultural

Faz um tempo, mais precisamente início do mês, rolou uma polêmica no entorno dos contos da J.K. Rowling sobre a magia na América do Norte – os microcontos são uma espécie de história magia do local que ajudam a entender um pouco a ambientação do filme Animais Fantásticos e Onde Habitam. A discussão surgiu a partir do movimento dos nativo-americanos com a acusação de prática de etnocentrismo e apropriação cultural da J.K. Rowling dos elementos da cultura indígena norte americana, ver post aqui. O conto fonte dessa polêmica é o que trata exatamente da magia “xamânica” que seria característica desses povos nativos que podiam usar magia sem varinha, vocês podem ler na íntegra aqui. Membros dos grupos ativistas nativo-americanos criticaram J.K. por se “apropriar” de elementos do xamanismo e por caracterizar os povos indígenas meio a la Pocachontas da Disney e, sobretudo, de forma inferior a cultura branca, civilizada, mesmo que fictícia dos bruxos. Acusaram-na de usar, levianamente, elementos culturais sagrados das práticas dos grupos indígenas, além de tratá-los como uma só grande etnia, quando eles se constituem de uma diversidade onde se torna leviano colocá-los como um grupo unitário, mesmo dentro de um universo fictício.

A apropriação cultural é um termo altamente discutido pela internet, publicizado pelos grupos de resistência de minorias, sobretudo os grupos que tratam de racismo, cultura negra e religião e fala sobre o uso indevido de símbolos e práticas de outras culturas que não a original de quem se apropria, e se torna negativo quando se trata da apropriação de práticas de uma cultura historicamente minoritária e oprimida por uma cultura dominante. Essa discussão vem e vai a tona pelas redes sociais em temas como a apropriação da Iggy Azzalea da cultura negra do hip hop, ou o uso de turbantes por mulheres brancas, entre outras. Dentro das ciências sociais é uma temática discutida sobretudo pela Antropologia, mas há um grande embate entre o que é apropriação cultural e o que massificação de consumo pela indústria cultural. Na discussão sobre a utilização dos turbantes como acessório de beleza sem significado simbólico além da mera estética, houve quem disse que era claramente uma apropriação cultural indevida, e houve quem disse que era uma manifestação do consumo de massas do mercado capitalista, que retira a “aura” dos produtos. O ponto é que apropriação cultural não é um termo fechado, e acho que na literatura, muito menos. Mas seu significado e sua prática tem um peso político fortíssimo que só podemos entender, minimamente, tentando nos colocar no lugar dos outros.

No início fiquei meio chocada com a acusação, mas lendo o conto, eu percebi que havia margem ali para que esse tipo de sentimento pudesse existir. Não quer dizer que eu esteja de um lado ou de outro, até porque meu questionamento sobre apropriação cultural na literatura continua em aberto. Para a defesa da J.K Rowling eu preciso dizer que é muito complicado criar uma profundidade cultural em um texto tão curto como o  de um conto, por outro lado, ela poderia ter sido um pouco mais cuidadosa com a temática, e talvez, feito um pouco mais de pesquisa, podemos até dizer: poderia ter se preocupado mais com a representação. Uma das coisas que entram em pauta é: se os nativos consideraram apropriação cultural ela se basear nas práticas ritualísticas deles para construir uma parte do universo fantástico de Harry Potter, todas as lendas e práticas – dos druidas, por exemplo – também não deveriam ser considerados apropriações? Assim, algum autor de fantasia escapa de realizar apropriação cultural? Como que fica a questão da apropriação cultural dentro da literatura? Pesquisei na internet, mas não encontrei nada sobre isso, não de fácil acesso, pelo menos.

Ao mesmo tempo, não deixo de pensar no lado dos nativos. A literatura forma opiniões, gera uma espécie de conhecimento sobre alguma causa, alguma coisa. Ou seja, a forma como se retratam práticas e costumes na ficção servem de parâmetro para entender uma realidade social, mesmo dentro de um universo fantástico. De certa forma, ainda que seja uma inspiração, uma manipulação criativa de práticas, etnias e localidades reais, a literatura ajuda no reforço ou desconstrução de práticas sociais e, sendo assim, grupos minoritários, que pouco são retratados na literatura mainstream, não acabam sendo mais prejudicados do que beneficiados com retratações estereotipadas de sua cultura? No fim das contas, a verdade da luta das minorias continua sendo certeira: se você não faz parte dela, não é possível sentir inteiramente o impacto que elas sofrem. Eu não sou nativo-americana, eu não tenho como de fato saber como o modo como J. K. Rowling descreveu esse grupo social no conto afetou a eles. J. K. Rowling não é nativo-americana, é branca, é europeia, e fala do seu ponto de vista, isso é claro. Teria ela o direito então de falar das práticas nativo-americanas, mesmo em termos de ficção? Ou mesmo na literatura, que não é bem uma apropriação da prática ou símbolo, mas da mística, vivencia-se a apropriação cultural negativa porque é uma escritora de cultura dominante? Segue a pergunta: como fica a literatura nessa questão de apropriação cultural?


Fica aí uns links legais de leitura, pra quem quiser saber mais desses embates:

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