Resenhando: O Projeto Rosie

Capa linda, não é?

Começo com dois fatos interessantes sobre o Projeto Rosie. O primeiro é que acho que nunca li um livro que se passasse na Austrália, ou se li, foi um daqueles livros de banca da Harlequin. Segundo, com certeza eu nunca li um chick-lit de autoria masculina. Sendo um gênero quase exclusivamente escrito por mulheres e para mulheres, foi uma surpresa enorme quando terminei e fui descobrir mais sobre o autor. Graeme Simsion é um homem!

Apesar de não ser uma discussão muito frequente ou enfatizada na área da literária (e aqui eu corro o imenso risco de estar completamente equivocada, já que não sou nenhuma estudiosa do campo), a questão de gênero dentro dos gêneros literários – dos escritores, mais precisamente – sempre foi algo que me chamou a atenção. Por que parece que tão poucas mulheres escrevem outros gêneros que não romance? E por que suas obras (com algumas exceções) parecem ser subvalorizadas em comparação a obras escritas por homens?

Terminei de ler Projeto Rosie com esse questionamento. E adianto que, ainda que a história tivesse sido ruim – o que não foi o caso -, eu teria gostado desse livro só por me despertar isso.

“Restaurantes são campos minados para os socialmente ineptos” (p.10)

O protagonista da história é Don Tillman, professor e pesquisador de genética de uma universidade em Sydney. O que podemos dizer dele? Uma versão quase humana de Sheldon Cooper de The Big Bang Theory – Obs.: Pra mim Sheldon não é humano. Don é um cara superdotado, cético e extremamente, extremamente, compulsivo por organização e estabelecimento de padrões. Digo que ele é quase humano porque, diferentemente do Sheldon, Don sabe a importância de se estabelecer um círculo social e, de certa forma, não é avesso as interações sociais, apenas inapto pelo fato de ser inteligente demais.

Don quer casar. Ou melhor, quer uma esposa. Em função de encontros e relações desastrosas do passo, ele tem uma brilhante ideia: criar um formulário para encontrar no universo amostral dele, uma esposa perfeita. Nesse ínterim ele acaba conhecendo Rosie, que é aparentemente uma garçonete de um bar gay que tem problemas com o padrasto e a ânsia de saber quem é o seu pai de verdade. A mãe de Rosie morreu quando ela era criança e a única coisa que ela sabe é que seu pai é possivelmente um dos colegas da turma de medicina da mãe, com quem ela dormiu uma vez na festa de formatura. Ao mesmo tempo em que põe em prática o Projeto Esposa, Don acaba decidindo ajudar Rosie em busca do seu verdadeiro pai, ao que ele denomina de Projeto Rosie.

” – É só um amigo – disse Rosie.

Se ela soubesse quantos amigos eu tenho, talvez tivesse se dado conta do grande elogio que havia me feito”. (p.74)

Como a história é contada pelo ponto de vista de Don, já se pode imaginar as conjecturas absurdas que ele faz de vez em quando (ou sempre). Há momentos em que você fica tentando entender o que ele quis dizer, e tantos outros que simplesmente tem vontade de rolar de rir. Abro um parêntese para salientar aqui que, geralmente associamos a irracionalidade ao domínio das emoções, mas com Don é possível ver que a razão pode ser igualmente irracional, por mais paradoxal que soe.

Ainda não consegui decidir se é pelo fato da história ser contada pelo ponto de vista de um personagem como o Don, ou se é porque foi escrita por um homem, mas a parte do romance em si me pareceu muito diferente dos padrões já estabelecidos dos chick-lit. Sobretudo a questão da tensão/atração sexual e de todas as emoções envolvidas nisso. O modo como o autor trabalhou a questão do sexo foi leve e tão sem neuras ou exageros sentimentais que achei perfeito, achei que deu uma dose de realidade de como os relacionamentos são, de fato. Claro, que como disse, isso pode não ser por ter sido escrito por um autor masculino e ele não estar historicamente carregado de toda uma doutrina sobre relacionamentos e sexo do modo como mulheres estão submetidas, mas simplesmente por que é o Don. Quem leu, vai entender o que eu quero dizer. E quem ler, no final vai entender também.

Sinceramente? Projeto Rosie me surpreendeu e Graeme me cativou! Certamente que vou ler qualquer outra coisa que ele lançar.


Esse livro foi selecionado para a leitura do mês de janeiro do Clube de Leitura Online. Quer participar? Clica aqui.

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4 comentários sobre “Resenhando: O Projeto Rosie

  1. daliteratura disse:

    Alessandra!
    Gostei muito da tua visão sobre a obra e confesso que quando estava lendo pensei no Sheldon também! hehehehe…
    Adorei a tua participação! Até fevereiro! 😉
    Beijo.
    Karina

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