Ah, férias…

manifesto sobre porque tenho tantos planos, mas só consigo dormir.


A vida escolar sempre é uma tormenta. Desde criança sendo acordados cedo, obrigados a socializar com os coleguinhas, a saber quantas maçãs o João tinha e com quantas ele ficou depois de ter dado duas para Maria e uma para Joana. A diferenciar uma paroxítona de uma proparoxítona e coisas do tipo que, com o tempo, foram se complicando mais e mais. Até esquecermos quase tudo assim que prestamos vestibular alguns anos mais tarde.

A questão é que percebemos que essa vida foi, e ainda é, uma tormenta quando chegam as férias. O período mais dourado de nossas vidas, de nossos anos. Aquele momento em que todo aquele desejo contido, seja por pressão interna ou externa, pode ser saciado em dias ensolarados ou chuvosos, em casa ou fora dela. O momento mais glorioso onde sentimos o vinho dos Deuses da liberdade de se dedicar ao tudo ou ao nada sem deveres de casa. E provas. E seminários para os que seguiram na tortura do tal ensino “superior”.

São tantos planos. Tantos objetivos hedônicos a serem realizados.

Mas eu, particularmente, só consigo dormir.

Acho que passo o momento todo do não-férias sofrendo e perdendo sono que meu sistema só consegue ver as férias como o período de me colocar numa tomada e me deixar carregando.

Não que isso seja uma reclamação. Vejam bem, dormir nas férias é diferente do dormir habitual. É um sono que só posso descrever como o sono mais gostoso dos sonos. Daqueles que recordam a infância antes da escola, quando a gente dormia e comia, e brincava, e comia, e dormia. Daquela preguiça que vai da ponta dos cabelos até a ponta dos dedos dos pés. Daquele estado permanente de semiconsciência em que você sabe que está na cama por conta do quentinho ou friozinho dos lençóis, mas ao mesmo tempo está decidindo que alternativa é melhor para começar sua jornada épica na terra média, as montanhas ou os vales?

Vai ver sou uma apaixonada pelo sono. E aí vejo as coisas dessa forma. Tem gente que não suporta dormir, acha que é desperdício de vida. Pra quê dormir quando, invariavelmente, vai ter o sono dos justos no final?

É, pode ser.

Admito sentir um pouquinho de culpa por dormir em vez de fundar uma empresa multibilionária, ou escrever um livro que vai reinventar o estilo literário de hoje em dia, quem sabe apenas ter um blog de sucesso. Mas, a questão é que nenhuma dessas coisas são tarefas de umas férias, e sim de uma vida. Uma vida que pode muito bem ser intercalada com espaços gostos de sonolência. Fico pensando, será que se eu decidisse dormir menos e me dedicasse mais ao estado acordado, eu teria o mesmo prazer nessas coisas do que dormindo?

Talvez sim, talvez não. Estou mais pro não.

Às vezes a pressa de sentir, de viver, a gente acaba não vivendo nada. Não conseguindo captar e vivenciar a profundidade das coisas, das pessoas, dos momentos e das sensações. Serão memórias superficiais, distorcidas e desfocadas de coisas que poderiam ser belas. Eu mesma, acredito que todas as minhas melhores memórias envolvem eventos preguiçosos, sejam tardes, noites ou manhãs, sejam conversas lentas, contemplações, leituras solitárias, filmes em companhia. Ou simplesmente dormir junto.

Dormir junto. Eis minhas melhores memórias, meus mais preciosos momentos de afeto. Acho que dormir junto com quem se ama é uma das melhores sensações da vida. Dormir junto dos pais, dos irmãos, dos amigos, dos amores da vida. Eu acho que, verdadeiramente, todas as pessoas com quem dormi junto nessa vida são as mais importantes pra mim. Não digo dormir de cansado, mas dormir porque se quis. Porque foi natural. Geralmente depois de muito riso, de conversas já sem sentido, de gestos de amor.

Não sei como eu parei nesse ponto, quando o que eu queria mesmo era falar das férias e dos meus planejamentos. Mas andei tentando não coibir meus dedos de digitarem o que eles bem entendem. É um pouco de liberdade que me dou ao direito. Ainda mais depois de tantos meses calculando meticulosamente cada palavra e seu significado nesses trabalhos hermeticamente fechados, científicos.

Escrever aleatoriamente é quase um ato de libertação, de rebeldia contra o sistema.

Mas voltando ao ponto de partida. Estou de férias.

E vim aqui dizer-lhes que ainda não vim com tanta frequência porque durmo demais.

E recomendo-lhes.

Bons sonhos.

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