Ser cientista social

A pior forma de injustiça é ser injusto e parecer justo.
– Tobias Barreto

Faz um tempo que eu ando com essa frase na cabeça desde a primeira vez que a li, tentando angariar mais argumentos para o meu TCC, é claro. Ao mesmo tempo em que me descabelo e choro lágrimas de sangue em ter que escrever esse trabalho final do curso, completamente enjoada e irritada com meu tema, saturada pelos anos em que estudo isso e pela pressão do momento, não consigo deixar de pensar que, poxa, eu descobri esse tema, e pelo menos em relação a mais uma coisa nessa vida, eu não sou completamente ignorante.

Mas seria estranho eu sair desse curso sem nenhuma crise. E mais ainda, sem respostas concretas.

As pessoas esperam demais dos cientistas sociais, ou sendo simplista, dos sociólogos. Esperam discursos inflamados de esquerda, esperam que andemos com manuais do Manifesto Comunista embaixo do braço, que sejamos todos comunistas, que não tenhamos soluções ou respostas concretas para os problemas sociais, e acima de tudo, que detestemos a realidade em que vivemos. Não negarei que é possível ter algumas pessoas que se encaixem nesse estereótipo, mas com toda a certeza eu faço a seguinte afirmação: eles são calouros.

Ou apenas utópicos.

E não vejo nenhum problema em ser o último. Eu mesma tenho minhas utopias adquiridas no meu mundo nos sonhos, mas também pelas leituras que tive durante essa fatigante graduação. Ser cientista social não é fácil, foi o que aprendi logo que escolhi o curso durante o vestibular. A pressão social e familiar de “você deveria ter ido pra Direito – Engenharia, Medicina” e o do “Vai ser professora? Atestado de pobreza” podem deixar a gente bem deprimido ao decorrer da graduação. Mas mais deprimido do que isso? É a sensação de tomar a pílula do Matrix e enxergar ali todas as coisas que você não via antes, mas que sempre estiveram presentes. E parecer ser a única que consegue vê-las fora do círculo de amigos do seu curso. Quantas vezes eu realmente desejei ter escolhido direito (como exemplo gente, nada contra – ou muito contra) e continuado ignorante sobre muitas coisas? “A ignorância é uma benção”, já li em algum lugar.

A verdade é que quem faz Ciências Sociais não é mais o mesmo. Não se se tem sensibilidade o suficiente para se incomodar com as coisas, é claro. E isso não tem volta. Você era alguém antes, você é alguém completamente diferente depois. Provavelmente não vai ser rico, e vai trabalhar pra caramba pra conseguir uma vida confortável, mas hoje em dia chego a conclusão que não é muito diferente de muita gente que escolhe a esfera privada pra trabalhar. Apesar de que nem mesmo na esfera pública as coisas estão assim tão fáceis (se você é concursado e não cargo comissionado, né amigo).

A questão é que você vai ser aquele chato que quando falarem sobre violência e menoridade penal, vai rir e dizer que “pimenta nos olhos dos outros é refresco”, porque vai saber que não é uma mera questão de alteração na legislação que vai definir o aumento ou diminuição da violência. Na verdade, você é aquele que vai ficar mais preocupado com isso, porque sabe que no final das contas “vai dar merda” já que todas as vezes que uma classe foi extremamente reprimida por outra, revoluções aconteceram.

Você vai ser aquele chato que vai se dizer que as cotas são importantes sim para um grupo de pessoas que não consegue entender o que “a cor vai influenciar em determinado concurso e cargo?” Mas não vai ter paciência pra explicar sobre representatividade, sobre o porque altos cargos são dominados por brancos quando mais da metade do país é composta de negros, sobre porque apesar de fingir que não a questão de cor é uma questão política e ideológica. Talvez você até tenha paciência, mas seus amigos certamente não vão. É difícil quebrar a “justiça” da meritocracia.

Você vai ser aquele que ao ouvir pessoas reproduzindo discursos de uma mídia que se diz neutra como se fosse opinião própria, vai ter que suplicar aos céus por paciência porque não é fácil perceber que as pessoas realmente não conseguem enxergar que aquele peixe que tão servindo como salmão é na verdade sardinha da mesma latinha que eles dizem estar vencida. Vai ficar deprimido por ver como discursos que pareceriam ser absurdos e ultrapassados ganham corpo e então, ver que, realmente… O Nazismo não foi uma coisa assim tão maluca de ter acontecido. Não com a massificação das telecomunicações, não com a facilidade e beleza com que estamos dispostos a absorver e legitimar tudo que vemos, ouvimos, lemos por talvez… Preguiça de pensar?

Eu poderia continuar dizendo muitos outros exemplos, mas cansei. E ainda tenho trinta páginas para serem escritas. Não quero dizer aqui que todo mundo deveria ser cientista social, não gente, precisamos de médicos, engenheiros, advogados e juízes sim! Mas precisamos que eles, além disso, também sejam mais críticos, mais virtuosos como Tocqueville previa. Precisamos que a “imaginação sociológica” seja espalhada nas escolas, na sociedade. Que as pessoa smais do que viverem mecanicamente, sejam conscientes da sua vida, daquilo que consomem, do que significa “medidas duras”, “superávit primário”, “crescimento e desenvolvimento”, por exemplo. É uma utopia minha? É… Porque sei que dificilmente isso vai acontecer. As ciências sociais são perigosas demais, não devem ser muito legitimadas. A gente sabe que quando o amiguinho ri quando apontamos essas incongruências é porque ele se sente incomodado e também porque já comprou o discurso de que “humanas” é furada que não é e nunca foi inocente.

Ser cientista social é complicado pelo simples fato de fazerem a gente pensar que aquela blusa que a gente comprou na nova coleção da loja foi uma necessidade construída, e que se foi tão barata, é provavelmente porque em algum lugar de toda aquela cadeia de produção, alguém foi explorado por isso, ou ficou sem emprego pela mecanização.

O fardo de ser cientista social é que a gente sabe que o jogo é sempre soma zero.


Não seria eu se não tivesse um post de chorando pitangas, não é gente?

Provavelmente esse é o mais seco – e alguns considerarão chato – que eu já escrevi. Mas fazer o quê… Eu sou cientista social. Faz parte do trabalho ser incômodo.

TORÇAM PRA QUE EU CONSIGA ENTREGAR ESSE TCC E SAIR DESSE POÇO DE TRISTEZA.
PROMETO POSTS MAIS FELIZES.
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2 comentários sobre “Ser cientista social

  1. Torcendo para dar certo o seu TCC. E eu queria mesmo que o mundo tivesse mais cientistas sociais que cutucassem todos ao redor. As perguntas nos levam a pensar, pena que tanta gente tem preguiça disso.
    Sou professora, sou de Humanas. Sei como este pensamento crítico faz falta.
    Um beijo,
    Fê.

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    1. Obrigada Fernanda! Imagino o quanto é difícil ser professora, eu to nesse caminho ainda, mas não peguei essas experiências concretas de trabalho, só estágio mesmo. Dá um pouco de desânimo, mas ao mesmo tempo é um desafio, imagino, tentar fazer com que as pessoas pensem um pouco mais sobre determinadas coisas… 😀 Obrigada pelo comentário!

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