Por que detestamos protagonistas?

Coloquei a pergunta como se fosse um comportamento geral, mas claro, pode ser só implicância minha mesmo.

(Sinalização: Não, este não é um post "chorando pitangas", glorifiquemos.)

Estou em um momento de releituras. Mais precisamente, relendo toda a série A Mediadora de autoria da Meg Cabot. Eu li os livros vai fazer uma década (pelo menos o primeiro já fez), e bem, é  como se estivesse lendo pela primeira vez, porque tem muita coisa que não lembrava de ter acontecido na série. Esses livros, como a grande maioria dos livros dela, são escritos em primeira pessoa. Tem gente que não gosta, tem gente que gosta, e tem gente como eu, que não se importa.

A questão é que eu ando mergulhada na cabeça de Suzannah Simon desde semana passada – a protagonista da série -, e no meio da leitura, não consegui evitar me perguntar porque todos os protagonistas são chatos? Ou no caso da Suze, ficam chatos. Descobri duas coisas interessantes na minha reflexão:

  1. Meu desgosto é maior quando eles são protagonistas femininos.
  2. E quando são narrados em primeira pessoa.

Talvez o problema não seja exatamente o gênero do eu-lírico, não é porque é feminino que é chato, mas uma questão do gênero literário e do estereótipo mesmo. A questão é que geralmente os livros que tem personagens femininos como principais são romances, mas alguns são de aventura/distopias, e o romance acaba tomando o primeiro plano da narração. Tem alguma coisa de errado aí? Ainda não, o problema é quando no meio de situações onde o romance não está em foco, ele surge repentinamente e deixa a estória totalmente deslocada e, sinceramente, chata. É como se tivesse uma obrigatoriedade em ter ladainha romântica porque é um livro narrado por uma mulher. Adicionando mais: os pensamentos tentam ser românticos, mas são preenchidos de vazio, se é que isso é possível. Onde eu vi isso? Na série, A Mediadora, evidentemente, em A Seleção (demais da conta, Meu Deus), em Divergente, e em Diário da Princesa, só para citar alguns.

Ok, Diário da Princesa é romance mesmo.

Mas os outros? Perseguições e ameaças de morte, e o eu-lírico devaneando sobre porque não é correspondido pelo seu amor, ou dividido entre dois amores (ou apenas chateando-se por não ser o centro das atenções, né America?). Não estou fazendo um manifesto anti-romance, amo romances, sou uma verdadeira fã de romances com açúcar não nego (Julia Quinn e Nora Roberts fã aqui, um beijo), só que existem formas em que eles podem estar presentes sem parecem forçados, certo? Não é só porque o protagonista é feminino que o dilema de qualquer livro tem que ser sobre a vida amorosa dela.

Aí vamos ao segundo ponto que coloquei lá em cima, talvez o problema, além de ter que seguir um estereótipo de personagem feminino, é também a questão da narração do livro. Talvez isso me incomode mais porque em livros em primeira pessoa você está o tempo inteiro na mente do personagem principal, então o tempo cronológico da estória vive parando para que você leia o tempo psicológico dele, ou dela, no caso. Sou honesta ao dizer que não é legal, no meio de um pandemônio, parar a narração para ler os pensamentos românticos dos personagens, é tão anticlímax que me veem lágrimas aos olhos e não são de felicidade.

Além disso, uma última coisa que me tira do sério sobre protagonistas femininas (não todas, só pra salientar): aparentemente elas tem a tendência de fazer coisas idiotas, como se fossem incapazes de agir racionalmente, totalmente controladas pela emoção. Considerando que Elizabeth Bennet consegue ser bem razoável nas suas atitudes e pensamentos, penso que alguma coisa se perdeu entre 1813 e o período atual no modo como se retratam as mulheres/garotas nos livros, hein? Não conseguimos vencer essa dicotomia social de que o homem pensa com a razão e a mulher com a emoção nem nos livros.

Agora vamos as observações finais:

Sobre a Suzannah Simon: Eu sei que parece que eu não gostei dela. E muito ao contrário, na verdade, Suze é uma das protagonistas mais legais que a Meg Cabot já criou. Me identifico com ela e sua tendência em fazer referências a Star Wars enquanto lê Cosmopolitan, não vejo porque uma garota não poderia gostar de ambos. Mas, ela tem alguns dos elementos que disse desgostar aí acima, principalmente sobre agir com emoção, às vezes sinto que se a autora fizesse propositalmente só para forçar um clímax de alguns dos livros da série.

Sobre protagonistas femininos: Quero salientar que não são todos os livros que tem protagonistas femininos que sofrem dos males que eu disse acima. Falei criando uma média com base em livros que eu já li. Por exemplo, Leviatã tem uma protagonista e se sai bem, a mesma coisa eu acho da Katniss em Jogos Vorazes, e de June em Legend. São livros que tem protagonistas femininos, tem romance, mas não ficam nessas ladainhas que disse não suportar (não muito, pelo menos).

Sobre protagonistas masculinos: Eles também conseguem ser chatos. Geralmente, no caso masculino, o grande problema está em conseguir sair do estereótipo de “herói”. Ou então das características que transformam eles em personagens “overpower”. Ou simplesmente eles são sem graça, tipo o Harry, de Harry Potter. Acontece né. Quem sabe eu não faça uma análise parecida a desse post, só para protagonistas masculinos?

E em homenagem à Mediadora, faço esse post escutando West Coast da Lana Del Rey, porque acho tudo haver com a série. Até a próxima!

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3 comentários sobre “Por que detestamos protagonistas?

  1. Cecília Maria says:

    Eu não podia concordar mais com um post como esse. Faço de cada palavrinha sua, minha. Eu sinto exatamente o mesmo, principalmente se tratando de personagens femininos e desses caras bobões que são aparentemente perfeitos e fazem tudo pela mocinha. Gente, parem. Apenas parem.
    Dia desses fiz um post pro Cult em Dobro falando exatamente disso, de como as protagonistas femininas vem ficando mais chatas a cada década. Foi difícil escolher aquelas personagens inspiradoras.
    Como sempre, você falou por mim e é por isso que amo seus posts.
    Um beijo

    Cecília,
    http://www.blogrefugio.com

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  2. Raíssa says:

    Nossa, muito obrigada!!
    Amo A Seleção e A Mediadora, mas as autoras insistem em estragar a personagem com essa coisa de insegurança e indecisão.
    Meu Deus eu sinto falta de personagens iguais as do Sidney Sheldon, que são cheias de determinação, coragem, auto suficiência e todas essas qualidades que eu sei que as mulheres tem, elas tem mas as escondem porque estão esperando que o príncipe encantado venha e as salve de novo! Argh! Cansei de livros com personagens assim, até enjoo da história quando essas características surgem.

    O Outro Lado da Raposa

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  3. meninasinvisiveis says:

    Sempre fiquei muito revoltada com as burradas que as protagonistas fazem, hahah. Mas depois de um tempo eu parei pra pensar melhor e me toquei que sem essas coisas idiotas o livro não teria emoção. E nem me fale da America, eu amo ela, amo a história mas sempre me deu vontade de dar um soco na cara dela pra ela se tocar que o lugar dela é com o Maxon. E outra coisa: também acho muito apelativo isso de sempre que a protagonista é mulher colocar tudo com romancezinho (e olha que sou a louca dos livros de romances), e gosto muito de livros que tem problemas e questões familiares por isso: sai dessa zona de que parece que a personagem só tem uma vida amorosa, que não tem amigos, nem familia, nem nada com o que se preocupar a não ser se o carinha gosta ou não dela.

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