Resenha: Um perfeito cavalheiro – Julia Quinn


imagemBom, em primeiro lugar, quero dizer que eu estou republicando as resenhas do meu blog antigo aqui, então vocês podem ver a resenha de O Duque e eu e O Visconde que me amava também, mas elas não são resenhas novas, ok?

Benedict: Bom, dos irmãos, ele nunca foi o meu favorito. Ou um que eu prestasse atenção – como se fosse possível com o Colin sempre roubando as cenas nos livros, certo? – Confesso que não estava empolgada para ler o livro do Benedict, porque não esperava muita coisa. Mas tinha que passar por ele para ler o mais aguardado de todos por mim, Os Segredos de Colin Bridgerton. E o que geralmente acontece em situações assim? Você se surpreende. E eu confesso, me surpreendi bastante com Um Perfeito Cavalheiro.

Podemos começar falando que o terceiro livro da série é diferente dos dois primeiros pelo seguinte fato: é um conto de fadas adaptado. Mais precisamente, o conto da Cinderela. Temos Sophie Beckett, uma filha bastarda de um Conde, que vive com ele como se fosse sua pupila embora todos na casa e até mesmo pessoas de fora, suspeitem do parentesco pela semelhança física entre os dois. Apesar de não representar uma figura paterna para ela durante a infância, ela vive razoavelmente bem e confortável com ele. Até, claro, ele casar-se. Como esperado, Sophie é detestada pela madrasta e as coisas pioram com a morte do Conde. A partir daí Sophie torna-se uma criada para Araminta e as filhas, e com poucas posses e dinheiro, não tem para onde ir a não ser continuar em sua casa, até os 21 anos, a exigência de seu “pai” no testamento.

Em um baile à fantasia, Sophie, com a ajuda dos criados da casa, acaba indo ao baile como uma dama misteriosa – utilizando as roupas de sua avó – e lá conhece Benedict. Como em um conto de fadas, os dois se apaixonam a primeira vista, mas Sophie o deixa porque precisa voltar para casa logo, restando a Benedict unicamente a luva – que em vez de cheirar como um perfume, cheira a mofo – da tal dama misteriosa. A partir daí, a história do livro e a do conto de fadas começam a seguir caminhos distintos. Depois de ser humilhada mais uma vez pela madrasta após ser descoberta – Sophie foge de casa e desaparece para o campo. Muitos anos se passam, e ela reencontra Benedict quando ele a salva de uma tentativa de estupro e a leva da casa onde trabalhava. A questão é que Benedict não reconhece Sophie, a bela dama pela qual se apaixonara há alguns anos e que nunca conseguira reencontrar, mas com a convivência, acaba desenvolvendo sentimentos por ela, mesmo sabendo que a diferença social entre eles é grande, e que ele nunca poderia casar-se com uma criada.


A verdade é que Benedict não era nada do jeito que eu imaginava pelos outros livros. Sou desatenta, claro, mas realmente, dos irmãos até então, ele é o que mais difícil de extrair a personalidade, os gostos e os ideais, quando aparece nos outros livros. Benedict tem uma alma de artista, apesar de aparentar ser tranquilo e comedido, ele é intenso. Ele sente as coisas de forma intensa, seja dor, seja raiva, seja desejo e seja amor. E ele ama a dama misteriosa, de tal sorte que, mesmo após tantos anos e com as memórias do encontro se tornando mais vagas, ele vê a vida como uma coisa sem graça pela ausência dela. Uma incompletude constante, mesmo quando decide esquecê-la. E quando Sophie entra na sua vida, ela vai conquistando espaço aos poucos, sem esforço, e ele se vê no dilema entre manter-se fiel ao amor desconhecido ou permitir-se amar Sophie as escondidas da sociedade, é claro.

Sophie é, no meu singelo ponto de vista, a personagem mais carismática e forte de toda a série até então. Em primeiro lugar, ela é diferente de todas as personagens femininas, não só pela questão da classe social, Sophie é uma criada, mas também pela própria personalidade. Apesar de ser quieta, pelo costume de manter-se invisível, ela tem um gênio forte, uma obstinação enorme, e sobretudo, princípios pelos quais é capaz de sacrificar o amor. Sophie é uma personagem extremamente realista. Ela não só sabe da sua condição na hierarquia social, seja como criada seja como bastarda, como não se deixa iludir pela ideia de um “final feliz” de uma ascensão social que, naquele período, era impossível à uma criada. Apesar de amar Benedict, ela se vê recusando um interlúdio de amor como amante dele, por seus princípios, pelo que ela sofreu durante sua vida toda sendo uma criança bastarda.

O terceiro livro dos Bridgerton traz um tom diferente dos dois primeiros. A crítica social é muito mais forte nesse livro. Não trata-se só da relação entre os personagens principais, de como eles construíram seu relacionamento, mas da própria impossibilidade se construir uma relação. Enquanto os demais livros envolviam uma questão mais personalista, a história de Benedict e Sophie revela uma problemática mais social, a impossibilidade da relação por conta da diferença de classes entre os dois. Julia nos mostra nesse livro algo além da alta sociedade londrina, como as coisas funcionavam para além disso. Põe os holofotes sobre o preconceito e o stigma social da época – e que de certa forma perdura até hoje. Sophie é uma personagem duas vezes estigmatizada: é bastarda e é uma criada. E isso pra mim foi tão bem trabalhado que até a postura de Benedict é harmônica.

Li algumas resenhas antes de ler o livro, e uma coisa que me chamou a atenção foram as pessoas comentando que para um título de “um perfeito cavalheiro”, Benedict tinha sido muito rude em várias cenas nos livros. Não posso discordar que em relação aos outros dois livros, quer dizer, quem leu O Duque e Eu, sabe que rudez era com o Simon Basset, Benedict consegue em algumas cenas, beirar o canalha. Mas, se pensarmos bem, nos termos da época, Sophie era uma criada pela qual ele estava, digamos, obcecado, e que o rejeita. Apesar de toda a educação e da finesse dos Bridgerton, eles não estão fora do contexto social da época. Reconhecendo a diferença de classes existentes, Sophie É de classe inferior a Benedict. E ele oferece a ela, tudo o que uma pessoa na condição dela poderia almejar: dinheiro, conforto e estabilidade, mas ela rejeita. Benedict, um Bridgerton, é rejeitado por uma criada. É uma ofensa à ele, então não vejo a postura de rude dele, fora de ritmo ao tom do livro. É só mais um sinal do preconceito social, salientado de forma sutil pela Julia Quinn.

E como termina? Ah, aí vocês vão ter que ler. Encerro essa resenha com a seguinte opinião geral: Um perfeito cavalheiro foi o melhor livro da série Bridgerton que eu li. Se tiver que encontrar defeitos nele? Talvez o final que voltou aquele tom meio conto de fadas de tudo solucionado, mas isso nem de longe ofusca a história. Nem de longe mesmo.


“Ela ficou tensa, porque teve quase certeza de que ele pretendia dizer que nunca se sentira daquele jeito, e ela não fazia ideia do que fazer a respeito disso. Por um lado, era emocionante ser a mulher que conseguia deixá-lo daquela forma, tonto de desejo. Por outro lado, ele já a beijara antes. Não havia sentido o mesmo na ocasião? Por Deus, estava com ciúme de si mesma?”


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