Vidas noturnas

“Have you some aces up your sleeve?”

A música embalava os corpos suados, agitados, bêbados. A luz estroboscópica revelava rapidamente o que acontecia no pequeno salão abarrotado, onde o calor humano e o frio do ar se misturavam. O globo giratório revelava flashes de beijos, abraços, garrafas de cervejas, fumaça, conversas de uma noite só. Em meio a penumbra, as risadas ecoavam. E também gritos, que acompanhavam a melodia ora dançante, ora sensual.

Quantas vezes estivera naquele mesmo cenário?

Fosse em beijos, em abraços, sempre com garrafas de cerveja imersa em conversas sussurradas ou gritadas sem sentido. Às vezes tudo ao mesmo tempo.

Era mais uma noite onde ela poderia ser outrem que não ela mesma. Onde sua voz poderia mesclar-se a de outros, procurando a mesma liberdade que ela, ou talvez vivendo na mesma prisão. Costumava pensar que o desconhecido sempre a atraia, não o outro, mas o ser. A ideia de que a cada vez que entrasse no breu excitante daquele salão, algo novo aconteceria. Como uma magia antiga que se sentisse apenas pelo eriçar dos pelos.

Não procurava ninguém. Se bastava no momento em que a melodia penetrava a cabeça e ordenava a seu corpo que se movimentasse, sem sua permissão, incansavelmente até que o calor passasse, as cervejas acabassem e a própria música parasse. Era egoísta a esse ponto. Tinha um encontro marcado consigo mesma, no escuro vacilante e intenso.

Havia vezes, entretanto, que deixava outros participarem de sua diversão, não por muito tempo. Não queria laços, não queria compromissos e nada muito além de uma noite, um breve momento do qual não se recordaria no dia seguinte, nem de rostos, nem de nomes, nem de vozes. Com um sorriso lento ela ergueria as mãos e lentamente moveria os quadris, sinuosamente, de olhos bem fechados. Fisgada por si mesma, de modo que não haveria espaço para ninguém mais. Inalcançável e incansável.

A cada noite uma nova personagem.

Novas vidas que morreriam ao primeiro raio de sol.

“Do you want me crawling back to you?”

 

+ + +

Inspirado na música Do I wanna Know? do Arctic Monkeys.

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